

O Demnio de Veneza

"Dirk Venetian"

Anne Mather















Os olhos dele refletiam o fogo do inferno, a tentao de um demnio. Emma queria manter distncia, mas
como fugir das investidas do conde Vidal Cesare, se cada parte de seu corpo ansiava pelo toque sensual de
mos diabolicamente experientes? No podia amar Vidal, o noivo de sua madrasta! Devia ser a atmosfera 
romntica de Veneza que estava perturbando seus pensamentos, mexendo com suas emoes... Um homem 
que se casa por dinheiro, e antes mesmo do casamento j trai sua mulher no merecia amor. O mais intrigante 
era o jeito irreverente de Vidal, jogando Celeste contra Emma sem o menor constrangimento. Talvez at 
incentivasse um confronto entre as duas para desviar as atenes de sua estranha relao com o mundo do 
crime.

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                                                        CAPTULO I
      
      
      O homem saiu silenciosamente da gua com sua roupa de borracha justa e negra 
brilhando como uma outra pele, sob a luz plida do luar. Ficou imvel por um momento, 
atento, mas o nico som que se ouvia era o suave bater da gua contra o cais. Olhou cuida-
dosamente para os lados e entrou na escurido do armazm diante dele. O armazm estava 
cheio de caixas de frutas que iam ser embarcadas e havia no ar um cheiro forte e doce, 
misturado ao da madeira das caixas e  maresia.
      O homem escondeu-se atrs de uma pilha de caixas, retirou os culos de mergulho e 
o equipamento de respirao e despiu a roupa de borracha. Rapidamente colocou seu 
equipamento numa caixa destinada a transportar uma guitarra. Atrs de uns sacos, 
escondeu os tanques de oxignio. Em seguida vestiu o palet de seu smoking e ajeitou a 
gravata com movimentos estudados, acalmando-se. Depois saiu, com a caixa da guitarra na 
mo e um cigarro aceso entre os   lbios.
      Abriu silenciosamente a porta do armazm, olhou outra vez com ateno o cais 
deserto e saiu, fechando a porta atrs de si.
      
      O conde Vidal Cesare pulou da gndola, pagou o gondoleiro e subiu as escadas at 
as arcadas do Palcio Cesare. Um suave tom rosado pintava o cu anunciando o romper do 
dia na cidade. Um rumor abafado na distncia indicava que vagarosamente a vida 
recomeava; logo os canais estariam repletos tipos: gndolas, barcos a motor e os 
pequenos barcos a vapor de passageiros chamados vaporetti, que levavam os visitantes da 
estao ferroviria, situada no Grande Canal, at os hotis da cidade.
      O conde Cesare conhecia cada metro da cidade, desde o Palcio dos Doges at a 
pequena igreja de San Francesco della Vigna.
      O Palcio Cesare se erguia ao lado do pequeno ptio no qual o conde Cesare entrava 
agora, um lugar abandonado h muito tempo, onde o musgo e o mato haviam invadido as 
paredes de pedra cinzenta.
      A fachada do palcio ainda estava intata e conservava algumas lembranas de sua 
glria passada. De estilo tipicamente veneziano, suas arcadas ostentavam um caprichoso 
trabalho de entalhe. Ainda se percebia que tinham sido douradas, embora o tempo as 
tivesse desgastado. Ainda assim era uma fachada imponente. Se a famlia Cesare tivesse 
continuado to influente quanto seus ancestrais, certamente o palcio teria sido reformado.
      Uma pesada porta de ferro dava entrada ao hall que a esta hora da madrugada 
estava frio com as guas do canal e cheirava levemente a mofo. Uma imponente escada de 
mrmore levava ao primeiro andar, onde os apartamentos haviam sido modernizados pelo 
conde e sua av, os nicos sobreviventes da famlia Cesare.
      Alm dos quartos espaosos, o resto do Palcio estava sem mobila e abandonado, 
deteriorando-se lentamente com a umidade e o passar do tempo.
      De vez em quando, o conde Cesare tinha acessos de remorso e achava que esse 
estado de coisas no devia continuar, mas a menos que se casasse com alguma herdeira 
rica, no via nenhuma possibilidade de mudar as coisas. No entanto, embora tivesse muitos 
romances, no conhecera nenhuma mulher que o fizesse desistir de sua condio de 
solteiro
      Um dia teria de se casar, ainda que simplesmente para levar adiante o nome da 
famlia. Enquanto isso no acontecia, se divertia vendo as candidata ao posto serem 
empuradas pelas mes para chamar sua ateno.   Continuava dizer que no via vantagem 
em comprar uma fruta quando elas estavam ali, prontas para serem apanhadas.
      Aos dezoito anos, Vidal Cesare tinha ficado rfo e fora forado a aceitar sua posio 
de conde, chefe da famlia Cesare, com uma slida fortuna nas mos. Tinha administrado 
bastante mal e gastado muito bem essa fortuna.
      Mas tudo isso era passado agora. No havia jeito de voltar atrs. De bom, tinha ficado 
uma grande experincia da vida: o conde no tinha iluses em relao ao mundo que o 
cercava e s mulheres em particular. Aprendera a fazer seu jogo com bastante habilidade, 
chegando at mesmo a ser inescrupuloso para poder enfrentar o tipo de sociedade que 
freqentava.
      Agora, ele entrava na ante-sala que dava para o seu quarto claro e largo. Das janelas 
amplas, via-se o canal l fora, que circundava um labirinto de vielas, palcios, pequenas 
praas, igrejas e mercados. A sala tinha tapetes cor de mbar e uma moblia escura, nem 
antiga nem moderna. Confortveis sofs e poltronas cobertas de veludo verde estavam 
colocadas ao lado de algumas esculturas, parte da coleo que sobrara das vendas que a 
famlia fizera: uma esttua em tamanho natural de um prncipe romano, um relevo de duas 
cabeas, feito por urn escultor famoso do sculo XVI e o busto de um padre, que o conde 
detestava. As paredes, cobertas com antigas e preciosas tapearias, contrastavam com um 
moderno aparelho de televiso e um bar.
      Ao lado da janela, havia uma mesa de madeira polida. Era ali que o conde e sua av 
faziam as refeies. Logo a mesa estaria pronta para o caf da manh da condessa, 
preparado por Anna, a governanta. Seu marido, Giulio, fora o chefe dos empregados do 
Palcio, que hoje se resumia nos dois, com idade para se aposentarem. Estavam com a 
condessa h quarenta anos e conheciam o conde Cesare desde que nascera.
      O conde desamarrou a gravata e atravessou a sala em direo ao quarto. Despiu-se 
e enfiou-se preguiosamente debaixo dos lenis de seda da enorme cama de quatro 
colunas.
      Caiu no sono imediatamente e foi acordado s onze e meia por Anna, que puxou as 
cortinas de veludo, sem a menor cerimnia, deixando a luz entrar. O conde resmungou e 
virou-se para o outro lado, enterrando a cabea no travesseiro macio.
         Anna, o que est fazendo?
      Anna, pequena e gorda, sempre vestida com seu uniforme preto, sorriu 
carinhosamente para ele.
   A condena est esperando para falar com voc. Tem coisas muito importantes 
para dizer e no pode esperar mais.
      O conde passou preguiosamente a mo pelos cabelos negros e levantou-se  
relutante.
  O caf est na mesinha ao lado. Os pezinhos ainda esto quentes.
  Anna, querida, o que eu faria na vida sem voc?  disse Cesare, enquanto servia 
o caf do bule de prata.
   J preparei tambm o seu banho e coloquei uma muda de roupa em seu quarto 
de vestir. Deseja mais alguma coisa, senhor?
  No, obrigado, Anna. Como sempre, voc antecipou meus desejos.  Havia um 
sorriso nos olhos azuis do conde e Anna olhou-o mais uma vez com grande carinho. Para 
ela, Vidal Cesare era a imagem da perfeio.
  Muito bem. senhor.  Ela sumiu e o conde levantou, vestindo seu robe de seda 
azul-escuro. Servindo-se de outra xcara de caf, foi at o banheiro.
      Quando, algum tempo depois, apareceu no salo, encontrou a av sentada em sua 
escrivaninha, escrevendo. Embora a condessa estivesse com quase oitenta anos, tinha uma 
cabea gil e lcida. S seu corpo j no obedecia como antigamente, castigado pelo 
reumatismo. Apesar disso, ela ainda tinha um ar imponente e intimidador, e suas maneiras 
eram s vezes severas. Mas com as pessoas que gostava, se revelava uma boa amiga. O 
neto era a pessoa mais importante de sua vida, embora lhe causasse muita preocupao. A 
felicidade dele e a necessidade de garantir um herdeiro  famlia Cesare estavam sempre  
presentes  em  seus  pensamentos.
      A condessa vestia um conjunto de duas peas de seda cor de malva, e usava vrios 
colares de prolas ao redor do pescoo. Pequena e magra, seus olhos azuis revelavam uma 
grande fora Interior.
      Quando Cesare entrou, ela se virou na cadeira e olhou-o com olhos penetrantes.
  Bem, Cesare, ento  decidiu finalmente honrar-nos   com sua presena.
      O conde ergueu seus ombros largos e procurou um cigarro, antes de responder.
  Como sempre, vov, voc tenta intimidar as pessoas. O que neste mundo pode 
ser to urgente que eu tenha que ser tirado da minha cama a esta hora da manh?
   quase hora do almoo. Se no passasse suas noites em clubes ou cassinos, 
no precisaria ficar dormindo at agora. Seu modo de vida me apavora, Cesare. Nem me 
atrevo a pensar no que teria acontecido se eu tivesse morrido e a voc coubesse dirigir 
nossos negcios sozinho. . ..
  Eu dirijo meus negcios muito bem, obrigado  respondeu Cesare indiferente, 
afundando em uma poltrona e pegando o jornal do dia.
  Cesare, oua. No tem conscincia da honra da nossa famlia? No tem um 
pouco de decncia? No se importa comigo?
      O conde jogou o jornal de lado.
         Muito bem. condessa, o que tem para me dizer?
        Vamos ter hspedes no Palcio.
  O qu?  Finalmente ela conseguira despertar o interesse de Cesare. Seus olhos 
se apertaram e ele no pareceu nada satisfeito.
  Sim, Cesare, visitantes.  A condessa tinha um ar arrogante agora. Conseguira a 
ateno dele e queria conserv-la por algum tempo.  Voc talvez no se lembre de 
Joanna Dawnay. Ela e eu fomos colegas de escola em Paris durante muitos anos. ramos 
grandes amigas e mesmo depois de terminada a escola, costumvamos nos corresponder. 
Quando casei com seu av, Joanna foi uma das minhas damas de honra.
      O conde Cesare comeava a ficar impaciente.
         E da? Essa mulher. . . est vindo para c?
        No, Joanna morreu quinze anos atrs.
        Vov! V direto ao assunto, sim?
  Eu chego l, Cesare.  Joanna casou bastante tarde na vida e o homem que 
escolheu no era rico. Os parentes dela tambm no
      tinham muito dinheiro, ento   Joanna resolveu casar com algum para poder 
sobreviver.
        Ela podia ter arranjado um emprego, ora!
  No h quarenta anos. Jovens como Joann no arranjavam um emprego, 
arranjavam um marido, Casavam com algum. Ento, Joanna casou-se com Henry Bernard, 
um Ingls e foii viver na Inglaterra. Cinco anos depois, teve uma filha, Celestte, de quem sou 
madrinha. Minha histria est comeando a ficar um pouco mais clara?
        No.
  Ah, bem. . . vai ficar logo. Celeste era uma criana adorvel, linda. Quando 
Joanna morreu, o pai de Celeste no tinha tempo para nada alm de lutar pela vida. Ento 
nosso contato foi temporariamente cortado, mas de vez em quando Celeste me escrevia e 
eu ia sabendo um pouco da sua vida. Aos vinte anos, ela casou com um homem de 
quarenta, um vivo que tinha uma filha, uma garota de mais ou menos sete anos. 
Infelizmente o marido morreu num acidente de carro, depois de dez anos de casamento, 
deixando para Celeste uma enteada de dezessete e nenhum dinheiro.
- Dinheiro no  tudo neste mundo. Algumas pessoas so muito felizes sem nada.
  No sabia que pensava assim. Voc parece gastar seu dinheiro sem nenhum 
esforo.
      Cesare sorriu.
        Isso  da minha conta, vov.
  Muito bem. Isso no  imporante agora. Vou continuar a histria. Como Celeste 
no  do tipo que se deixa arrasar pelas circunstncias, conseguiu um convite para visitar 
um primo distante que vivia nos Estados Unidos. L, casou de novo, desta vez com um rico 
industrial, bem idoso. Infelizmente esse homem que se chamava Clifford Caughan morreu 
tambm, dois anos depois do casamento. Celeste finalmente se transformou numa mulher 
rica.
        Que conveniente! Parece que ela o amava profundamente, no?
  Se ela casou com ele por dinheiro, sabendo que no viveria muito, quem sou eu 
para julg-la? Eu a admiro muito. Gosto dela de todo o corao.
  Corao!  Que corao tem voc, se concorda com um casamento de interesse?
  Meu querido Cesare, esse  o nico tipo de casamento que voc pode fazer, no 
? Ento no me critique!
  Mas no pretendo casar com uma velha nem pela maior fortuna do mundo.
  No. E est certo em no querer. Velhas no podero dar a voc filhos fortes que 
possam levar adiante o nome da famlia Cesare. No, voc deve se casar com Celeste 
Vaughan.
      Cesare olhava incrdulo para a av. Finalmente, tinha revelado seus planos, a razo 
da longa histria que ele tinha sido obrigado a ouvir com completo desinteresse. Ela j o 
tinha apresentado antes a outras candidatas, mas desta vez cada detalhe tinha sido 
considerado. A mulher em questo era jovem, mas no demais para ele e alm de tudo, rica, 
o que para a condessa Francesca Maria Sophia Cesare era a qualidade mais importante. 
Seu grande desejo era restaurar o Palcio. Ver isso acontecer antes de morrer era tudo o 
que queria.
      O conde sacudiu a cabea. Por um momento, a inesperada declarao o deixara fora 
de controle, mas, depois, o entendimento do que aquele plano podia significar veio 
chegando devagar at seu raciocnio. Foi mais indelicado do que pretendia.
  Isso  absolutamente ridculo!  disse exaltado.  Sugiro que voc mande um 
telegrama o mais depressa possvel para a Inglaterra ou para os Estados Unidos, para onde 
quer que elas possam estar, informando que circunstncias fora do nosso controle nos 
obrigam a cancelar a visita. E se no fizer isso, nunca mais vai ver o conde Cesare nesta 
casa.
  Tarde demais. Elas j esto no hotel Danieli e j telefonei esta manh convidando-
as para ficarem hospedadas aqui quanto tempo desejarem.
      
      
      
                                                       CAPTULO  II
      
      
      Emma sentou-se na cama, um pouco cansada, enquanto fazia as malas. Era ridculo 
que Celeste tivesse desfeito tantas malas sabendo desde o princpio que elas no iam ficar 
muito tempo no hotel. Mas Celeste no tinha a mnima inteno de arrumar coisa nenhuma 
quando tinha Emma para fazer isso por ela. Celeste adorava ter suas coisas ao redor, para 
estar segura de suas prprias posses.
      Dando um profundo suspiro, Emma estudou seu reflexo no espelho. Via uma rplica 
de si mesma, rosto e lbios plidos, cabelos sem brilho.
      Ia parecer ainda mais insignificante diante da figura esfuziante de Celeste, com seus 
faiscantes olhos azuis. No podia deixar de se comparar desfavoravelmente  madrasta. A 
forte gripe que pegara a tinha deixado deprimida, fsica e mentalmente. Na verdade, devia 
agradecer a Celeste por tir-la da mida e gelada Inglaterra e traz-la para o quente e 
delicioso clima de Veneza em plena primavera. Mas Celeste parecia esconder alguma coisa 
que ela at ento no havia conseguido entender.
      Pensativa, Emma voltou ao passado, lembrando o choque que tivera ao descobrir a 
paixo de seu pai por uma mulher to jovem como Celeste. Especialmente porque isso tinha 
acontecido poucos meses depois da morte de sua me. Emma tinha sido forada a ser 
amvel com a madrasta. Mas Celeste no tinha tempo para perder com meninas e acabou 
convencendo o pai de  Emma a colocar a filha em um colgio interno, embora seu salrio de 
contador mal desse para pagar as mensalidades.
      Emma tinha aceitado razoavelmente bem a vida no colgio. Nunca tivera dificuldade 
para fazer amigas. Nas frias ia para a casa de seus tios, ano aps ano, at que tivesse 
idade suficiente para passar as frias em casa sem interferir na vida de Celeste.
      Preocupada, via o pai se acabando aos poucos, sempre deprimido. Desconfiava que 
os constantes pedidos de dinheiro de Celeste estivessem causando essa depresso.
      Estava terminando a escola e se preparando para fazer uma faculdade, quando seu 
pai morreu. Ela ento interrompeu os estudos para no mais voltar. O pai s possua a casa 
onde viviam, que deixou para a mulher. E a primeira providncia de Celeste foi vender o 
imvel e sugerir a Emma que arranjasse um emprego e um quarto para morar.
      Foi difcil para Emma adaptar-se, e ela sentiu um violento dio por sua madrasta, 
certa de que tinha sido a causa da morte precoce de seu pai. Mas o tempo curava muitas 
coisas e Emma, que tinha visto muito pouco seu pai desde que a madrasta tinha assumido 
tudo, no sentiu muita falta dele.
      Ela soube depois que Celeste tinha ido para os Estados Unidos e esperava nunca 
mais v-la. A madrasta escreveu uma breve carta avisando sobre seu segundo casamento e 
outra comunicando a morte de Clifford Vaughan, que a transformou numa mulher bastante 
rica. Emma no sentiu nem interesse nem inveja, pois afinal Clifford lhe era um homem 
completamente estranho, de quem apenas tinha ouvido falar.
      Absorvida em seu trabalho de estudante de enfermagem, em um grande hospital de 
Londres, descobriu que podia esquecer completamente a presena de Celeste em sua vida 
e lembrar apenas de coisas que tinham acontecido quando ela era uma criana querida 
pelos seus pais. Compreendia que seu pai tinha sido um tanto fraco, pois do contrrio 
Celeste no o teria moldado inteiramente  sua vontade, como fez.
      Durante a permanncia de Celeste nos Estados Unidos, Emma progrediu no segundo 
ano de enfermagem e o companheirismo que encontrou junto s colegas compensou a falta 
de uma vida familiar. Tabalhava duramente, ganhava recomendaes de seus superiores e 
achava que realmente tinha encontrado uma profisso adequada para si mesma, finalmente 
livre da madrasta. Mas tinha pegado uma gripe sria, que se transformou numa pneumonia. 
Quando a crise passou, estava fraca e abatida, incapaz, de enfrentar, pelo menos por vrias 
semanas, o cansativo trabalho de uma enfermeira principiante.
      A inspetora lhe perguntou se no tinha algum parente que pudesse hosped-la por 
uns tempos, at que ela estivesse completamente recuperada, de preferncia longe do ar 
poludo das ruas de Londres. Emma no conseguiu se lembrar de ningum. Os parentes de 
sua me, que costumavam receb-la nas frias na poca da escola, estavam fora de 
cogitao. Lembrava-se de como reclamavam toda vez que Emma aparecia, pois achavam 
que Celeste  quem deveria ficar com ela. Embora no duvidasse de que a receberiam, se 
pedisse, no queria sentir-se mais uma vez como parasita.
      A inspetora no tinha conseguido sugerir qualquer outra coisa, e o problema ficou no 
ar at que uma carta de Celeste chegou de Nova York, convidando Emma para acompanh-
la numa visita  Itlia, por algumas semanas. Celeste avisava tambm que chegaria a 
Londres no dia seguinte, e pedia a Emma que fosse encontr-la no aeroporto.
      A princpio Emma ficou indignada. Como  que depois de tanto tempo Celeste 
escrevia praticamente ordenando que fosse com ela a Veneza? Mas aos poucos pensou 
melhor: sua situao financeira era pssima e ela no poderia passar algum tempo nem 
numa penso da esquina, muito menos na Itlia. Alm disso, Celeste lhe despertou a 
curiosidade. Por isso, no dia seguinte, tomou um nibus at o aeroporto e voltou com 
Celeste num txi, abarrotado com uma pilha de malas.
      Celeste repetiu o convite na sala da sute que tinha alugado no hotel Savoy. Emma, 
em sua modesta capa de chuva de plstico, os cabelos molhados pela chuva que caa, 
sentia-se mais uma criada de Celeste do que sua enteada.
      Pressentia que ali devia haver alguma coisa oculta e que a natureza gananciosa 
daquela  mulher no podia ter mudado da noite para o dia. Dificilmente Celeste gastaria 
tanto dinheiro em dirias de hotel por nada, mas Emma no conseguia perceber onde 
estava a coisa. Quando lhe contou que tinha sofrido uma pneumonia, Celeste demonstrou 
tanto charme e simpatia, que chegou a fcar inteiramente desarmada.
      Celeste disse a Emma que ento, nessas circunstncias, no havia necessidade de 
mais demora. Daria algum dinheiro para que comprasse roupas adequadas  filha de uma 
rica senhora e depois das formalidades para obteno do passaporte, elas poderiam viajar 
para Veneza,
      J tinham passado dois dias no hotel Danieli, quando Celeste anunciou que elas iam 
se hospedar no palcio que pertencia  madrinha de Celeste, a condessa Cesare. E, agora, 
Emma estava arrumando as malas, imaginando se ia conseguir desvendar o mistrio 
daquele convite. Por que Celeste a teria trazido? E por que, se ia ficar na casa da condessa, 
precisava de companhia? Se ela queria uma criada, podia ter contratado uma, o que lhe 
sairia bem mais em conta do que manter uma enteada em um quarto particular no Danieli e 
lhe dar dinheiro suficiente para que ningum pudesse consider-la uma avarenta. Emma no 
conseguia entender nada. Por que Celeste concordava em ficar em um velho e talvez mal 
cheiroso palcio, quando tinha todo o conforto moderno e a animao desse luxuoso hotel?
      Achava que Celeste no ia ficar com a condessa, uma senhora com quase oitenta 
anos, por razes puramente sentimentais. No era disso! Ento, por que estaria indo para 
l? A condessa teria algum filho? E se tivesse, seria ele a razo da excitao de Celeste? 
Afinal de contas, agora tinha tudo o que queria. Ser que a idia de possuir um ttulo de 
nobreza a estaria impressionando? Mas se fosse isso, Emma pensou de novo, continuava 
sem entender a razo de ter sido includa no convite.
      A porta da sute se abriu e Celeste entrou, resplandescente com um vestido de seda 
que caa docemente nas curvas suaves de seu corpo pequeno e perfeito.
       Emma  ela perguntou.  j terminou com as malas?
      Emma levantou. Como era muito alta, sentia-se enorme ao lado da delicada Celeste, 
embora fosse bem proporcionada e no tivesse os ossos angulosos muitas vezes evidentes 
em jovens altas e magras.
  Ainda no  respondeu Emma.  Estava apenas tomando flego. Diga-me, 
Celeste, tem certeza que quer que eu v com voc a esse palcio? Quero dizer, eu. . . 
poderia ficar aqui em algum lugar menor. Uma pensione mais barata.
      O rosto de Celeste assumiu uma expresso que Emma conhecia bem e que lhe 
provocava apertos no estmago, quando era menina. Mas, agora, Celeste j no a 
intimidava tanto.
   claro que vai comigo  disse Celeste, com um sorriso forado que contrariava a 
frieza de seu olhar.  Fomos ambas convidadas e naturalmente vai me acompanhar.
      Emma encolheu os ombros magros.
  Mas por que a condessa iria me convidar?  insistiu, e Celeste fez um movimento 
impaciente.
  Voc faz perguntas demais! Onde est meu lencinho de chiffon verde? Vou us-lo 
no jantar desta noite. A condessa vem jantar conosco aqui no hotel e partiremos amanh 
cedo.  Ela olhava seu reflexo no espelho, evidentemente satisfeita.  A propsito, voc 
vai jantar conosco esta noite.
      Desde sua chegada ao Danieli, Emma tinha sempre jantado no seu quarto, e Celeste 
jantava sozinha no salo do hotel. Ela gostava do mistrio que criava sobre si mesma, 
sabendo que todos especulavam sobre a encantadora viva loira que jantava sozinha todas 
as noites.
      Emma arregalou os olhos mas no fez mais comentrios. O mistrio se aprofundava e 
uma leve suspeita estava nascendo dentro dela. Estava claro que Celeste queria 
impressionar a condessa com sua afeio pela enteada. Mas por qu? A menos que a 
condessa pensasse que Celeste tinha tomado conta de sua enteada quando Charles 
Maxwell morrera. Seria isso? A dolorosa verdade era que at agora Celeste tinha sempre 
considerado Emma um estorvo, e quanto mais depressa se livrasse dela, melhor.
      Emma usava nessa noite um vestido de linho rosa-plido, que devia ter custado uma 
boa quantia  Celeste, mas no lhe ficava bem, pois a cor acentuava sua palidez. Ela 
precisava de cores mais definidas e Emma no podia deixar de pensar que Celeste tinha 
escolhido um tom pastel com a inteno de desfavorecer sua aparncia.
      Era bem verdade que ela nunca teve muito dinheiro para gastar com roupas, mas as 
poucas que tinha eram adequadas e jovens, e nunca tinha antes sentido essa sensao de 
estar sendo manobrada para permanecer apagada.
      A condessa chegou s oito horas e Celeste e Emma a encontraram no salo de estar. 
Emma nunca tinha visto uma pessoa com m aspecto mais nobre em sua vida. Quando as 
apresentaes terminaram, a condessa perguntou a Emma:
  E voc, querida, que achou de sua sbita mudana de sorte? Emma olhou aflita 
para Celeste e ento, desajeitada, sacudiu os
      ombros:
        Eu. . .  . . .   bem diferente do hospital. . .
      Os dedos de Celeste apertaram seu brao, dando um aviso.
  Hospital?  perguntou a condessa franzindo as sobrancelhas. Esteve no hospital, 
querida? Mas isso  muito desagradvel na sua idade.
  Eu. . .  eu. . .   comeou Emma, mas Celeste a interrompeu.
  Eu no contei a voc em minha carta que Emma tinha tido uma pneumonia? E  
claro, o hospital foi o lugar mais adequado para o tratamento.
      Emma olhava intrigada para a madrasta. Se ela queria a confirmao de suas 
suspeitas, ali estava.
  No, minha querida Celeste, voc no me disse nada, mas no tem importncia. 
Que sorte foi voc ter vindo para a Itlia, Emma. Vai achar sua recuperao aqui muito mais 
agradvel do que em Londres, me atrevo a dizer. Conheo aquela terra muito bem e aquele 
clima me apavora!
      Emma engoliu em seco, incapaz de pensar direito por um momento.
  Seu ingls  excelente, condessa  ela murmurou sem graa, incapaz de pensar 
em outra coisa para dizer.
  Obrigada, minha querida. Eu tambm acho.  A condessa sorriu.  Vamos, tome 
seu Martini. Creio que  hora de irmos jantar.  Ela segurou o brao de Celeste.  Agora, 
minha querida, precisa me contar tudo direitinho. Quero saber sobre esses seus dois 
falecidos maridos, e se est pensando em casar de novo. Aos trinta e trs anos, sua vida 
mal comeou. Ns precisamos tornar sua estadia aqui uma coisa inesquecvel!
      Emma estava assombrada. Gostaria de alegar uma dor de cabea ou qualquer outra 
coisa, e deixar as duas a ss, mas sua educao a impedia de insultar a condessa dessa 
forma. Alm disso, sabia muito bem qual seria a reao de Celeste se fizesse isso.
      Ento ela foi jantar com as duas, mas apenas brincou com a comida, enquanto ouvia 
a conversa entre a condessa e sua madrasta. A comida estava deliciosa. A minestra, uma 
sopa feita de vegetais e ervas, estava to aromtica quanto saborosa, mas mal notou o que 
havia em seu prato. Mesmo a deliciosa sobremesa falhou em acord-la da letargia em que 
ela tinha mergulhado. Para seu alvio, a condessa conversou a maior parte do tempo com 
Celeste, e ela foi poupada de dizer mentiras. Celeste, no entanto, alterava completamente 
as coisas que poderiam ser de seu interesse.
  Pobre Charles  ela estava dizendo.  Ele ainda era to jovem quando morreu, 
mal chegando aos cinqenta e trs anos e to charmoso ainda!  Ela olhou para Emma.  
 claro que eu e Emma dividimos nossas mgoas e penso que ajudamos muito uma  outra 
nessa hora terrvel de nossas vidas!
   claro!  A condessa estava condoda.   sempre uma fase bastante difcil, 
mas voc teve a sorte de ter uma companheira de uma idade to prxima da sua. Afinal de 
contas, minha querida, voc no pode de modo algum ser tomada por me dessa moa. 
Vocs parecem  irms.
      O olhar que ela deu a Emma quando disse isso era mais claro do que mil palavras, 
mostrando que ela considerava Celeste muito atraente e delicada para ter uma irm como 
essa.
  Emma e eu somos muito amigas  disse Celeste, olhando para Emma de novo.
      As coisas agora estavam quase claras para Emma. Celeste desejava se casar com o 
conde, e a condessa, com seu sentimento familiar, dificilmente levaria em considerao uma 
mulher que tivesse abandonado, sem remorso, sua enteada. Agora, de uma coisa estava 
certa: Celeste podia estar pensando que a compraria com essas frias, mas no ia 
conseguir enganar aquela velha senhora por muito tempo. Emma ficou imaginando como 
seria o tal conde. De meia-idade, feio e debochado, provavelmente, mas como Celeste no 
tinha hesitado em se casar nos Estados Unidos com um homem bastante idoso, s pelo seu 
dinheiro, dificilmente ela consideraria essas coisas importantes, quando comparadas com a 
noblesse que ela alcanaria tornando-se contessa Celeste Cesare.
      Emma sentia-se enojada e envergonhada. Aceitando o convite, ela na prtica se 
colocava de acordo com a fraude de Celeste e todo o prazer que pudesse sentir com essas 
frias seria destrudo. Tomou uma deciso: comunicaria  madrasta que desejava voltar 
para Londres. Celeste podia ir para o seu desejado palcio no dia seguinte e fazer o que 
quisesse, mas sem o seu apoio.
      Estava pensando nisso quando a condessa lhe perguntou:
  O que est achando de sua visita a Veneza, cara mia? Voc se interessa pelos 
edifcios antigos, museus e galerias de arte? Ou est apaixonada pelo Lido e pelas calmas 
guas azuis do Adritico?
  Acho que  um lindo lugar  Emma respondeu polidamente.  Visitei o Palcio 
dos Doges e esta manh me sentei em um dos cafs ao ar livre da praa So Marcos.
        Ah, sim, a praa So Marcos! Visitou a baslica?
  Infelizmente ainda no. No tive tempo para fazer isso com calma e no queria ir 
apressadamente.
      A condessa juntou  as  mos.
  Ah, posso ver que tem prazer em ver coisas bonitas. Isso me agrada muito. Minha 
famlia tinha uma grande coleo de pinturas e esculturas, mas... Muitas tiveram que ser 
vendidas, o que no me impede de visitar galerias e igrejas onde existam verdadeiras 
fortunas em obras e tesouros famosos, para serem vistos e cobiados.
      Ela riu, virando-se para Celeste. Sabe, Celeste, sua me e eu costumvamos passar 
horas no Louvre quando ramos jovens estudantes. Ela lhe contou isso? Celeste ficou 
hesitante.                        
   claro!  ela finalmente respondeu, mas Emma teve certeza de que era mais 
uma de suas mentiras.
      Emma gostou muito de falar sobre arte com a condessa. Mesmo pobre, sempre se 
interessou por arte, especialmente pintura, e adorava museus. Era mesmo uma pena que no 
dia seguinte precisasse retornar a Londres.
      Quando o jantar terminou, Emma pediu licena e levantou. Agora podia sair sem 
provocar a ira de Celeste, pois tinha certeza de que a madrasta queria ficar a ss com a 
condessa para falar sobre o assunto que a tinha trazido a Veneza.
      Foi at seu quarto, pegou um agasalho leve e desceu de novo. Se ia embora pela 
manh, pretendia aproveitar ao mximo o final de noite. No se importava muito se no era 
conveniente que uma jovem desacompanhada se aventurasse sozinha pelas ruas de 
Veneza. Emma sabia que os homens italianos eram conhecidos pelos seus avanos 
amorosos, mas sentia-se perfeitamente capaz de se entender com qualquer atrevido que 
surgisse em seu caminho. Ignorava os olhares que lhe eram dirigidos, ou as casuais 
piadinhas que s vezes eram feitas quando passava.
      A Riva degli Schiavoni estava repleta de gente que circulava e conversava 
animadamente, e as gndolas partiam levando casais para um passeio inesquecvel ao 
longo dos canais, com suas lanternas brilhando na escurido.
      Emma ficou tentada a entrar num caf, mas sua coragem no deu para tanto. Ela no 
tinha trazido sua bolsa, seno alugaria uma gndola para um passeio; pelo menos ali, ficaria 
livre da necessidade de olhar para os lados continuamente, vigiando a aproximao de 
estranhos.
      Finalmente voltou ao hotel, com uma certa depresso comeando a tomar conta dela. 
Ainda ia ter que enfrentar Celeste e isso no seria agradvel. Conhecia o temperamento da 
madrasta quando era contrariada.
      Chegou ao Danieli e estava cruzando o grande salo completamente distrada, 
quando bateu contra o peito de um homem que vinha do bar. Ele a segurou, gentil.
        Scusi, signorina. Si Io un mio sbaglio.
  Non importa, signore  Emma murmurou depressa, com um sorriso. Ela notou 
que os olhos muito azuis do homem faziam uma avaliao completa de seu corpo.
      Havia nele algo que o distinguia da maioria dos italianos que encontrara nessa noite. 
Que ele era italiano, no havia dvida, embora fosse bastante alto, coisa rara entre eles. Era 
elegante, tinha ombros largos e vestia um palet esporte de altssima qualidade. Ela teve 
certeza de que era algum especial; parecia completamente  vontade nesse ambiente 
luxuoso.
      Sua pele era bastante bronzeada para um europeu, como se passasse, bastante 
tempo ao ar livre, e seus clios, longos e espessos, lhe davam um toque diferente no rosto 
de traos marcantes. Era um homem muito atraente, no apenas por ser bonito e atltico, 
mas principalmente por um certo magnetismo que deixava uma mulher completamente 
consciente de sua prpria feminilidade. Ele era bem mais velho do que ela, devia ter uns 
trinta e cinco anos. Emma nunca se sentiria atrada por homens mais velhos. Jovens de sua 
idade sempre lhe pareceram mais divertidos do que os mdicos quarentes do hospital. Mas 
naquele instante, todas as suas opinies anteriores pareceram passar por uma reviso e 
percebeu que, na verdade, tinha era muito pouca experincia da vida.
      O homem sorria, agora dizendo:
        Parla lei italiano?
      Emma suspirou e balanou os ombros.
        No. Apenas algumas frases  continuou em ingls.
  Ento  agora ele tambm falava ingls, com um leve sotaque  voc  inglesa!  
Diga-me, eu machuquei voc?
  No, claro que no  mentiu, pois tinha batido com o tornozelo em alguma coisa 
e estava sentindo um pouco de dor. Mas achou que, ia passar logo e preferiu no prolongar 
o incidente.
  Bene. . .  bem, ento est passando frias aqui, suponho?
  Estou, mas. . . agora preciso ir  disse, percebendo que seria "cantada" se no 
fosse embora logo. Mas o homem lhe segurou o brao.
  No se v, signorina. Me permita oferecer-lhe uma bebida, apenas para mostrar 
que aceita minhas desculpas.
  Agradeo, mas no posso signore. Tenho amigos me esperando. Preciso ir.  
claro que aceito suas desculpas. Foi uma falta mais minha que sua.  Eu estava distrada.
        Muito bem, mas pelo menos me diga seu nome.
        Est bem. Emma Maxwell  ela sorriu tambm.
        Bene, arrivederci, signorina.
  Adeus.  Emma foi at o elevador, sentindo que os olhos dele a seguiam.
      Ficou excitada com aquele encontro e, embora decidida a realmente dizer a Celeste 
naquela noite mesmo que estaria embarcando de volta na manh seguinte, passou antes 
em seu quarto e sentou diante do espelho para se olhar. De repente, achou que estava se 
comportando como uma idiota. O que podia querer um homem como aquele com uma 
adolescente boba como ela? Se fosse bonita como Celeste, entenderia, mas ela nada tinha 
de particular que pudesse chamar a ateno de um homem. Seu cabelo loiro era liso demais 
e naquele momento caa sobre seus ombros em mechas, meio despenteado pelo passeio. 
Sua pele era macia, mas estava plida. Ficaria bronzeada no sol quente de Veneza, se 
resolvesse ficar, pensou. Seus olhos, que sempre considerou seu ponto forte, eram grandes, 
verdes, e seus clios eram to longos quanto os daquele homem. Finalmente seu exame 
chegou ao seu vestido cor-de-rosa plido, que a deixava com ar de doente. Ento decidiu 
que no importava o que acontecesse, pela manh iria visitar as pequenas lojas que havia 
nos estreitos ao longo do canal, e comprar alguns tecidos para fazer ela mesma alguns 
vestidos em cores que realavam um pouco seu tipo. Um vermelho vivo talvez, ou aquele 
maravilhoso azul que ela havia visto numa vitrine.
      
      
                                                      CAPTULO III
      
      
      Celeste s apareceu de madrugada, resmungando baixinho, embora bastante 
satisfeita com os acontecimentos da noite. Emma tinha ficado lendo at tarde, imaginando 
por onde andaria Celeste. A condessa, com certeza, no estava acordada at aquela hora.
      Emma saiu da cama e vestiu um penhoar acolchoado sobre seu corpo delgado. 
Ento, devagarinho, abriu a porta de seu quarto e entrou na sala da sute. Celeste tinha 
acendido um cigarro e estava em p, fumando, com um sorriso maroto nos lbios.
      Com a apario de Emma, ela exclamou:
  Emma! O que em nome dos cus est fazendo, rodando por a a esta hora da 
madrugada?
      Entrando na sala, respondeu sacudindo os ombros:
   que... eu no consegui dormir.  Fez uma pausa.  Celeste, estou pensando 
seriamente em voltar para casa amanh. . . quero dizer, . .  hoje cedo, se possvel.
      A expresso de Celeste mudou imediatamente. 
       Casa? Quer dizer para a Inglaterra?
  Sim  disse Emma, nervosa.  Eu... eu no sei que mentiras est dizendo sobre 
suas relaes comigo, mas decidi que no quero enganar aquela velhinha. Detesto 
mentiras.
  Aquela velhinha, como voc a chama, menina, se importa mais com o meu 
dinheiro do que com minhas falhas  respondeu.  Sua ingnua cabecinha teria 
conseguido imaginar que a razo da minha presena aqui  cavar um ttulo para mim, ao 
mesmo tempo que restauro as posses da famlia Cesare?
  Cheguei a pensar nisso  admitiu devagar.  Mas isso no pode ser to simples, 
Celeste, ou voc no teria se dado ao trabalho de me trazer junto com voc, teria?
  Em parte, marcou um ponto, Emma. A condessa est acima de tudo interessada 
em dinheiro, mas como uma tpica italiana, a famlia significa muito para ela. Se eu chegasse 
aqui, sem a minha "querida" enteada, creio que ela ia ficar muito curiosa.
        Voc poderia dizer a verdade. Que eu trabalho em Londres.
  Oh, no, queridinha! Com sua mentalidade simplria, sei que no lhe ocorreu 
imaginar exatamente quanto Clifford deixou para mim, mas posso garantir a voc que a 
condessa sabe meu saldo bancrio at o ltimo centavo.
  O que isso tem a ver? Montes de garotas cujas parentes tm dinheiro trabalham 
atualmente. Por que eu no poderia fazer isso?
  Eu sei que poderia, mas com muitos milhes de dlares em dinheiro e 
propriedades, creio que isso seria improvvel, para no dizer impossvel. 
        Muitos milhes de dlares?  Emma estava espantada.
   claro! Voc no imaginou que eu casei com o velho Clifford e agentei suas 
patas em cima de mim por nada, no ?
  Celeste. . .  ela murmurou com voz quase inaudvel, enojada com tudo aquilo.
  Ento? Emma, seja sensata! Que mal pode fazer permitir que essa velhinha 
acredite que eu e voc somos as maiores amigas, apenas para justificar suas. . .  como direi. 
. .  regras sociais?
      Se era mesmo verdade que a condessa estava apenas interessada em seu dinheiro, 
ento no seria razovel que Celeste tivesse a chance de adquirir o ttulo, se isso era to 
importante para o orgulho dela? Alm de tudo, Celeste era o tipo de pessoa que obtinha o 
que queria, a despeito de qualquer oposio.
      Emma balanou a cabea desconsolada.
  Tudo isso, chega a ser repugnante. Se  isso o que o dinheiro traz, estou satisfeita 
por no ter nenhum.
        Por que, querida? No gostaria de ser uma condessa?
  Decididamente no. Preferia casar com um homem que eu amasse, do que com 
algum playboy de meia-idade, que esbanjou toda sua fortuna e agora deseja comear a 
gastar a dos outros.
      Celeste deu uma sonora gargalhada.
  Emma! Voc no poderia estar mais enganada sobre o conde Vidal Cesare! Ele 
est longe de ser de meia-idade e  muito atraente, culto e elegante. No que isso importe, 
como voc bem deve ter adivinhado, mas  muito bom saber que o futuro pai dos meus 
filhos no precisa tomar afrodisacos para estimular seus desejos naturais.
        Celeste!  exclamou.  Que coisa horrvel de dizer!
  Voc  sensvel demais, querida. Se continuar comigo mais um pouco, logo vai 
perder essas sutilezas e aprender muita coisa. Cresa, queridinha, e logo vai entender que a 
razo pela qual a condessa prefere a mim e no alguma velha rica para seu neto,  porque 
sou capaz de produzir o herdeiro que ela to ardentemente deseja para o nome da famlia 
Cesare. Percebe?
  Bem, torna as coisas compreensveis, mas se no se incomoda, prefiro ficar de 
fora. Vou voltar para casa e voc continua sua vida sem mim. Tem se arranjado muito bem 
at agora na vida e no v pensar que precisa sentir nenhuma responsabilidade por mim. 
Como voc, posso sobreviver sozinha no meu prprio mundo.     
        Voc vai ficar!  Celeste disse secamente.
        Penso que no  Emma estava decidida.
  Ento pense de novo, Emma. A condessa gostou muito de voc e no tenho a 
mnima inteno de permitir que retorne, me deixando com uma infinidade de detalhes que 
no gosto de resolver, voc sabe! No, queridinha, voc fica. E se ainda tem vontade de 
fazer mais algum discurso, eu no! Voc pode at no acreditar nisso neste momento, mas 
sou capaz de tornar a vida bem desagradvel para voc, caso insista em se afastar de mim. 
Estou sendo forada a isso!
  No me ameace, Celeste. Posso muito bem me manter sem sua ajuda, voc sabe. 
No preciso de nenhum auxlio de sua parte!
  No, pode ser que no! Mas esse hospital onde est trabalhando, em Londres, 
sem dvida se utiliza de fundos de caridade e se voc me abandonar agora, vou achar 
algum na direo capaz de fazer qualquer coisa por um bom dinheiro de doao, 
entendeu?
        Voc deve estar brincando, Celeste!
        Nunca  falei  mais srio em  minha vida, querida!
        Bem...  existem outros hospitais, ora!
  Sou capaz de descobrir voc, esteja onde estiver. Tenho dinheiro, menina, e 
acredite, sei que dinheiro pode comprar tudo. Tudo!
  Acredito piamente que voc pode me caar. Por que, Celeste? Por qu? O que foi 
que eu fiz a voc?
  Nada. Nada tem a ver com isto, Emma. Quero-a aqui, porque  do meu interesse, 
e se voc se afastar de mim, sua vida vai se tornar um inferno. Vai se arrepender e desejar 
nunca ter me desafiado.  Ela deu um suspiro e mudou o tom de voz, de novo.  Querida, 
afinal o que estou pedindo de mais? Seis semanas de seu tempo, durante as quais voc 
poder visitar uma das mais excitantes cidades do mundo. Isso  pedir muito, ?
      Emma apenas sacudiu a cabea, chocada demais para falar. Ento, sem dizer uma 
palavra voltou a seu quarto. Tinha dezenove anos, nenhuma experincia e ningum no 
mundo para quem pudesse se voltar, fora alguns parentes distantes na Inglaterra, que na 
verdade pouco se importavam com o que pudesse acontecer a ela.
      No lhe restava outra alternativa seno ficar com Celeste, porque no momento estava 
impotente at para se defender dela.
      Na manh seguinte, a cena da noite anterior parecia nunca ter acontecido. Celeste 
tinha reassumido sua atitude protetora e contou a Emma que tinha finalmente conhecido o 
conde Vidal Cesare na noite anterior.
  Ele chegou depois do jantar, porque tinha compromissos inadiveis, mas ficou 
muito tempo depois que a condessa se retirou. Fomos at fazer um romntico passeio de 
gndola. Emma, ele  maravilhoso! Precisamos arranjar um acompanhante para voc, en-
quanto estamos aqui, porque ningum pode aproveitar as delcias de Veneza  noite, sem 
um homem do lado!
  Obrigada, mas no ser necessrio  Emma disse baixinho.
 Voc no vai embora!   Era uma afirmao  e no uma
      pergunta.
  No, Celeste, no vou. Mas no pretendo me deixar manobrar por voc a ponto 
de aceitar a companhia de um tipo qualquer das
      relaes desse conde.
  No seja to exagerada, querida! Ningum vai forar voc a fazer nada que no 
queira...  Ela se levantou com elegncia.  Agora vou me vestir e voc pode acabar de 
arrumar as malas, por favor. A gndola dos Cesare vir nos buscar s onze horas. Giulio, 
um homem que trabalha para a condessa, vai nos levar. Imagine, eu, Celeste Bernard, 
hospedada em um verdadeiro palcio veneziano!
      Para Emma, o palcio representava muitas coisas. Certamente era antigo e supunha 
que devia ser lindo, mas ela s estaria animada com essa visita se as circunstncias fossem 
outras. Quando cruzavam o gelado e mido hall do palcio, Emma estremeceu. Subiram as 
escadas sob o olhar de Giulio, que carregava duas das enormes malas de Celeste. Emma 
carregava uma pequena e uma valise, que acomodava a maior parte de suas coisas. No hall 
ainda tinha ficado o grande ba com roupas de noite, sapatos e bolsas da "futura condessa".
  Precisamos instalar um elevador neste lugar  disse Celeste baixinho para 
Emma.  Ningum mais sobe escadas nos Estados Unidos.
      A condessa esperava por elas no grande salo e Celeste ficou aliviada em notar que 
os apartamentos tinham aquecimento central e que a moblia era razoavelmente moderna e 
confortvel. Pensava quanto iria gastar na reforma do palcio, to logo ela se tomasse a 
condessa.
      A empregada, Anna, estava esperando para servir caf e biscoitos e depois de vrias 
xcaras e alguns cigarros, Celeste e Emma foram para seus respectivos quartos.
      O quarto de Celeste era enorme, com uma macia cama com cortinas de veludo ao 
redor. Estavam presas agora, mas quando soltas, encobririam completamente os ocupantes 
da cama. O piso era quase completamente coberto por tapetes macios e a moblia era de 
madeira escura.
  Cus!  exclamou Celeste divertida.  Isto parece um auditrio e no um quarto!
  Talvez fosse usado para isso nos velhos tempos  respondeu Emma, 
esquecendo por um momento seus problemas com a madrasta.  Talvez as contessas 
anteriores o usassem para dar audincias em seu quarto, como faziam reis e rainhas em 
tempos remotos.
  Isso  verdade? Bem, se a cama for confortvel creio que at vou gostar, embora 
eu imagine como esses drapeados de veludo devem ser sufocantes em noites quentes.
  Neste lugar?  Emma sacudiu a cabea.  Nem posso imaginar isto ficando 
abafado. Os palcios so construdos de pedra, voc sabe. E pedras levam muito tempo 
para aquecer.
      Celeste suspirou, olhando ao redor.
  Onde ser o banheiro? Ser que o encanamento  moderno? Tomara que seja!
      O banheiro era enorme, majestoso, todo em mrmore e a banheira daria para conter 
uma dzia de adultos de uma s vez. Para alvio de Celeste, o encanamento era moderno e 
a gua quente.
      Como Anna tinha se oferecido para desfazer as malas de Celeste, Emma resolveu 
conhecer o resto do palcio.
      Seu quarto era bem menos imponente que o de Celeste, mas ainda assim bastante 
grande. Ficou um pouco desapontada com a cama, que era moderna. Ela, muito mais do 
que Celeste, teria gostado da atmosfera genuna de coisas antigas. Arrumou suas coisas e 
saiu. O salo onde tinham estado, agora estava deserto, mas ouviu sons vindos de uma 
porta de passagem  esquerda, que parecia levar para a rea da cozinha. Imaginou que a 
condessa estivesse l supervisionando os preparativos para o almoo.
      Voltou pela longa galeria que corria da frente at o fundo e ficou por um momento na 
balaustrada olhando para baixo, para o hall deserto e um tanto escuro. Podia imaginar o que 
o palcio devia ter sido nos dias quando aquele hall era usado para recepes, iluminado e 
cheio de lindas mulheres vestidas de sedas, cetins e brocados, adornadas por jias 
fabulosas como Emma nunca tinha visto, enquanto homens elegantemente vestidos 
curvavam-se diante das damas para danar o minueto, ao som dos violinos que flutuavam 
pelo ar at em cima, onde os jovens da famlia espiavam secretamente desse mesmo balco 
onde ela estava.
      Estava perdida em seus pensamentos, quando a porta externa se abriu embaixo e 
uma rstia de luz momentaneamente clareou o cho, revelando a presena de um homem 
que entrava, carregando uma caixa de guitarra.
      Completamente inconsciente da presena dela l em cima, ele foi silenciosamente 
pelo hall at uma ante-sala, abriu a porta e desapareceu l dentro. Emma ficou intrigada. 
Havia algo de estranho na entrada furtiva do homem l embaixo. Era bvio que ele no 
queria chamar a ateno. Quem seria ele e o que estaria fazendo ali?
      Celeste tinha contado que apenas os apartamentos do primeiro andar eram usados 
pela condessa e seu neto. Se era assim, por que algum entrava pela ante-sala do andar de 
baixo com um violo na mo? Parecia ridculo e ela se virou para sair dali. O que quer que 
estivesse acontecendo, no era da sua conta, e ela mal conhecia a condessa para ir contar 
a ela que algum estava em um dos quartos de baixo.
      Andando pelo corredor, passou por vrias portas pesadas e entalhadas e sentia um 
quase irresistvel desejo de abrir todas para ver os mistrios que escondiam.
      O pequeno incidente que acabava de testemunhar, poderia ser perfeitamente 
inocente, mas lhe tinha dado uma estranha sensao de nervosismo e ela decidiu que seria 
melhor voltar sem demora ao salo, antes que deixasse sua imaginao vagar para mais 
longe.
      Levou um susto enorme e quase deu um grito, quando uma voz grave disse perto 
dela:
        Aonde voc pensa que vai?
      Virou-se depressa com a mo na boca para suprimir um grito.
  Voc! . Era o homem em quem tinha esbarrado no saguo do hotel Danieli.
      Ele pareceu surpreso e ergueu as sobrancelhas.
  Por que voc est aqui? - Seu tom de voz era cortante e estava zangado com 
alguma coisa que ela no podia entender.
  Eu... bem... a condessa Cesare convidou minha madrasta e eu para passarmos 
uns dias aqui com ela. Mas. . .  quem  voc?
        Ento voc  a enteada de Celeste Vaughan?
  Sim, mas voc no respondeu minha pergunta!  Ela deu uma sbita 
exclamao.  Meu Deus! Ento voc  o conde!
        s suas ordens.  Ele se inclinou ligeiramente.
  Ento. . .  murmurou.  Mas de onde voc veio. .. quero dizer... eu no o ouvi 
chegar. Isto . . . ento era voc l embaixo no hall?
      O rosto dele se fechou numa expresso sombria.
      - Voc estava a no corredor? Ou ouviu alguma coisa e veio investigar?
  Receio que estava aqui sonhando acordada, admirando p palcio. Peo que me 
desculpe. Devo dizer. . . signor ou signor conde.  Ela corou intensamente.  Creio que 
estou um pouco atrapalhada. Voc me assustou tanto!
  Isso no tem importncia. Voc disse que estava sonhando acordada?
  Sim... eu. .. eu vi uma pessoa entrar l embaixo, com uma caixa de violo e ir para 
dentro da ante-sala,  tudo. Achei um pouco estranho, pois a condessa disse que os quartos 
de baixo nunca so usados.  claro que se eu soubesse que era voc...!
      O conde franziu a testa e passou a mo impacientemente pelos cabelos negros. Ele 
pensou um pouco e disse:
  Eu s vezes uso a parte de baixo para guardar minhas coisas.  s. Ento, este 
era o conde com quem Celeste pretendia se casar,
      pensou Emma. Este homem que na noite anterior tinha lhe dado uma gloriosa 
sensao de autoconfiana, mostrando com seus olhos que a achava atraente. Este homem 
que at a tinha convidado para tomar um drinque com ele... Isso era incrvel, inaceitvel! 
Como esse homem podia permitir ser vendido dessa forma, mesmo que fosse para a 
restaurao da fortuna da famlia Cesare? Isso chegava a ser repugnante.
      Percebeu que ele a examinava e lembrou com desgosto que estava usando uma 
velha cala jeans e uma camiseta azul nada especial. Tinha prometido comprar roupas 
novas e esqueceu.
      Ele sorriu estranhamente e disse:
  Eu entendi que a enteada de Celeste era quase uma criana, nada mais do que 
uma adolescente...
  Tenho dezenove anos  ela disse na defensiva.  Vou fazer vinte daqui a alguns 
meses.
         mesmo?
         mesmo. Bem... vamos entrar?
        Se quer assim...
      Ele tinha o ar de convencimento e segurana de um homem que sabe de seu poder 
sobre uma mulher. Emma ficou com raiva por ter-se sentido atrada por ele, um homem com 
fama de jogador, mulherengo e aproveitador, um homem que no tinha o menor escrpulo 
em casar com uma mulher apenas por sua fortuna.
      
      
      CAPTULO IV
      
      
      Para alvio de Emma, Celeste no estava no salo quando eles entraram, mas a 
condessa l estava e sorriu, dizendo:
  Ah, vejo que j se conheceram. Cesare, no  hora de voc mudar de roupa para 
o almoo?
      O conde estava usando cala preta e uma camisa de seda branca aberta no pescoo, 
que revelava os plos negros de seu peito, que para Emma parecia to atraente como na 
noite anterior. Ela se repreendia pela prpria ingenuidade: um homem como aquele jamais 
se interessaria por ela. No era nenhum rapazinho imaturo, mas sim um homem do mundo, 
um homem que alm de tudo, tinha idade suficiente para ser seu pai.
        Como quiser, condessa  ele murmurou.
      Emma corou, passando a mo desajeitadamente pela cala jeans.
        Creio que tambm tenho que mudar de roupa  disse.
  O que esteve fazendo, menina?  A condessa se dirigia carinhosamente a ela.
  Estive andando pelo palcio. Creio que este deve ter sido um lugar maravilhoso no 
passado.  Sentiu-se horrvel, percebendo o que suas palavras queriam dizer.  Isto .. . 
nos dias quando se vivia luxuosamente.
  Eu compreendo, filha  replicou a condessa.  No tenha receio de me dizer que 
o palcio est caindo aos pedaos por negligncia nossa. Meu neto no liga para as coisas 
do passado; ele vive no presente.                         
      Ele estava de p, ouvindo a conversa, e no parecia nem um pouco constrangido com 
o comentrio da av. Pelo contrrio, ele se divertia,
  Voc deve ter compreendido que minha av est muito ansiosa para que o palcio 
seja restaurado  ele comentou com clara ironia.  Para ela, as coisas so muito mais 
importantes do que as pessoas. Eu considero que um ser humano precisa apenas de um 
lugar para viver, comida para comer e a luz do sol para se aquecer.  Ele ria, atraente, 
enfurecendo sua av.
   E dinheiro? E sobre dinheiro, Cesare? Voc  a ltima pessoa neste mundo que 
pode viver sem dinheiro.
      Cesare levantou os ombros.
  Condessa, na verdade voc sabe muito pouco a meu respeito. Os homens 
mudam, voc sabe, amadurecem, tornam-se adultos, ganham experincia.
  Ah!  Ento a condessa desandou a falar em italiano e, gesticulando com 
impacincia, saiu intempestivamente da sala, indo para seu quarto.
      
      O almoo foi servido no terrao que tinha vista para o canal, com um sol morno 
batendo sobre eles e o delicioso aroma de comida vindo da cozinha.  Emma sentiu-se um 
pouco mais relaxada.
      Tinha trocado a cala jeans por um vestido azul de crepe, que comprara muito antes 
de Celeste ter reaparecido, e que sabia, ia bem com sua pele clara. Tinha tambm escovado 
seus cabelos at que brilhassem, caindo soltos sobre seus ombros, como fios de ouro.
      Mesmo assim no podia ser considerada seno insignificante comparada com a 
gloriosa beleza de sua madrasta, que estava sentada  esquerda da condessa, na cabeceira 
da mesa.
      Celeste usava um vestido amarelo, drapeado na blusa. Um cordo com um grande 
brilhante solitrio descansava no espao entre seus seios e brincos de brilhantes pendiam 
curtos de suas orelhas, faiscando ao menor movimento.
      O conde Cesare, sentado do lado oposto, no podia deixar de sentir seus olhos 
irresistivelmente atrados por essa jia e pela pele acetinada. Emma notava isso, remexendo 
inquieta o delicioso risotto em seu prato. Ela nunca tinha sentido antes emoes como 
aquelas que o conde agora despertava nela. Tivera vrios namorados durante os ltimos 
anos, mas nunca havia se envolvido num caso mais srio. No se considerava uma mulher 
sexualmente madura at aquele momento. Provavelmente o clima romntico de Veneza 
encorajava as pessoas a pensarem continuamente em amor e amantes, pensou. Era um 
tanto assustador para uma pessoa to comum como ela, ser subitamente transportada para 
esse tipo de ambiente. Embora tentasse resistir, seus olhos no a obedeciam e fixavam o 
conde to intensamente que ele de repente virou-se e olhou em sua direo. Ela abaixou 
logo a cabea, traindo-se, e comeou a juntar os gros de arroz e cogumelos que ainda 
restavam em seu prato.
      Quando o almoo terminou, Celeste anunciou que ia fazer sua sesta, como de 
costume. E como a condessa ia fazer o mesmo, Emma pensou em fazer suas compras, 
completamente esquecida de que na Itlia as lojas fecham entre uma e quatro da tarde.
      Pegou sua bolsa, trocou seus sapatos por sandlias mais confortveis e depois de 
avisar Anna que ia sair um pouco, desceu as escadas, at o hall de baixo.
      Ficou surpresa quando uma pessoa saiu das sombras debaixo da escada e disse: 
       Bene...  e agora onde est indo? Ela estremeceu.
  Fazer umas compras, signor conde. Eu gostaria que no me assustasse assim 
todas as vezes.
      Ele sorriu e segurou-lhe levemente o brao.
  As lojas esto fechadas e est muito quente para ficar andando por a. Sugiro que 
venha comigo. Vou lhe mostrar as maravilhas da lagoa.
      Emma arregalou os olhos.
        Voc!  Quero dizer, por qu?
        Porque quero e costumo sempre fazer o que quero! 
 Realmente eu. . .  Emma o encarava meio encabulada. Podia perfeitamente 
admir-lo  distncia, mas no podia negar que ficar perto dele era um pouco demais para 
ela. Tinha medo de no ressistir ao magnetismo dele e, acima de tudo, tinha certeza de que
      Celeste no ia aprovar isso. 
      O conde pegou entre os dedos uma mecha de seus cabelos e disse:
  Voc est querendo vir. Ento, por que no? Se est preocupada com sua 
madrasta, prometo no contar a ela.
  Em outras palavras, voc quer uma sada clandestina comigo entre um e outro de 
seus encontros apaixonados com Celeste!  isso?
      Ele apenas sorriu e ignorando o comentrio, empurrou-a de leve em direo  porta. 
Emma deixou-se levar; era mesmo difcil resistir.
  Mas que. . . como  que vocs dizem?. . . que criatura antiquada voc  com essa 
conversa de "sadas clandestinas" e "encontros apaixonados". Que interesse isso pode ter 
para ns, mia cara, nesta deliciosa tarde? Venha, no vai se recusar, vai? Afinal de contas, 
srta. Emma Maxwell, ns nos conhecemos ontem  noite, no foi? Pois hoje eu liguei para 
seu hotel para expressar de novo minhas desculpas e me oferecer para acompanh-la, se 
desejasse sair para conhecer minha cidade.
  No acredito em voc! Por que iria fazer uma coisa dessas? 
      Ele sorriu e no respondeu. Cruzaram o ptio e chegaram aos degraus de embarque.
  . .. estou mesmo comeando a me perguntar por qu  ele comentou baixo 
Ento Emma olhou para ele e sorriu, incapaz de resistir ao tom brincalho.
      Era bem alto e Emma, acostumada com homens da sua altura, achou bom ter que 
levantar os olhos quando olhava para ele.
      Um barco a motor balanava na plataforma flutuante e ele apontou, dizendo:
  Este  meu. Se importa se formos nele em vez de usar uma gndola? Eu prefiro 
sair sem algum por perto para ouvir a nossa conversa.
      Emma ficou tentada a fazer um comentrio mas no fez. Apenas permitiu que ele a 
ajudasse a entrar na pequena lancha, e esperou enquanto ele entrava ao seu lado.
      Ficou ao lado dele na proa do barco, maravilhada com a rpida mudana do cenrio. 
Cesare apontava os lugares mais interessantes, demonstrando ser excelente conhecedor da 
histria da cidade, o que desmentia os comentrios de sua av.
      Viram a igreja de Santa Maria delia Salute, o Ca' d'Oro, o Gritti Palace Hotel, que 
tinha sido um palcio gtico e era agora um dos mais luxuosos hotis de Veneza; ele sabia o 
nome de todos os palcios pelos quais passavam e Emma, que nunca tinha sonhado que 
pudessem ser tantos, apenas olhava e admirava, encantada com o esplendor de tudo.
      Passaram pela ponte Rialto e Emma viu as lojas alinhadas, com suas finas e 
exclusivas mercadorias expostas nas vitrines.
      -  melhor visitar a ponte a p  disse Cesare.  As lojas vendem de tudo que atrai 
os turistas: cristais de Murano, renda de Veneza, jias e brinquedos e toda a sorte de 
souvenirs.
  Tenho certeza que sim, mas admito que as lojas de turistas no me atraem muito. 
Gostaria de ir a lugares menos. . . badalados.
  Est bem.  Cesare sorriu.  Se confia em mim, vou fazer como sugeri antes e 
lhe mostrar a lagoa.
        Confiar em voc? No compreendo.
      Cesare virou a lancha para fora do canal principal, para entrar em um outro mais 
sombreado e estreito, que corria entre as pedras escuras das casas. Ali havia arcos cheios 
de trepadeiras que levavam at ptios internos, grades de ferro trabalhadas e portes de 
jardins. Havia uma profuso de trelias e passagens e o pequeno barco balanava, entre 
troncos ou colunas caneladas.
  A maioria das ilhas da lagoa esto desertas agora, desabitadas, voc entende?  
claro, ainda existem Murano, Burano, Torcello, mas eu penso que vamos deix-las para 
outro dia, v bene?
      Emma olhou para seu relgio de pulso.
  J so mais de trs horas, signore. Talvez seja melhor deixar tambm a lagoa 
para outro dia, no?
      Enquanto ele manobrava a lancha, Emma no pde deixar de admirar os msculos 
salientes daqueles braos fortes.
      Imaginava por que motivo ele nunca tinha se casado, pois devia haver mulheres em 
fila atrs dele e de seu ttulo.
      Subitamente eles deixaram o emaranhado de canais para chegar at a gua brilhante 
da lagoa, to azul quanto o cu, que ao longe se misturava com o horizonte. Foi uma 
paisagem to inesperada e bonita, que Emma suspirou de admirao.
      Cesare desligou o motor do barco e por algum tempo boiaram na corrente, deixando 
para trs as torres e igrejas das ilhas agrupadas de Veneza.
      Havia poucos barcos nessa hora da tarde e eles pareciam estar sozinhos no mundo 
azul, em uma solitria e silenciosa irrealidade.
        Gostou?
        Como eu poderia deixar de gostar?
      Ela foi para a frente do barco e sentou-se nas almofadas macias que cobriam o 
assento de madeira. O conde seguiu-a e sentou-se tambm ao seu lado, oferecendo um-
cigarro. Emma recusou, agradecendo.
        Ainda no entendo por que voc me trouxe aqui.
  Por que no?  Ele se recostou preguiosamente.  Gostei de voc.
        Conde Cesare...    ela disse, embaraadssima.
        Cesare, apenas, soa muito melhor. . .  ele sussurrou.
  Bem. . . Cesare, ento. Sei perfeitamente que Celeste  muito mais interessante 
do que eu. Ento por que se incomodaria comigo? Por favor, no tente me fazer de boba, 
pois eu no sou!
  No estou fazendo isso! Realmente gosto de voc e queria ver como reagiria 
quando visse esta lagoa.
        Por que no trouxe Celeste?
  Voc faz perguntas demais, menina  ele respondeu com mais firmeza agora.  
Aceite os presentes quando os deuses os oferecem.
      Emma deu as costas; para ele. Ela simplesmente no conseguia acreditar que esse 
homem, esse conde Vidal Cesare pudesse sentir um interesse repentino por algum 
insignificante como ela e que, alm do mais, pudesse prejudicar suas chances de sucesso 
com Celeste. Era ridculo. Tinha que haver alguma razo, mas ela no podia imaginar qual. 
Ele era muito mais do que atraente para uma mulher, e provavelmente seu convite para um 
drinque na noite anterior tinha sido uma reao natural de um italiano desejando mostrar sua 
amabilidade a uma turista inglesa, apenas isso. Que ele a tenha chamado ao telefone 
naquela manh, como disse, era muito pouco provvel. De repente, e sem saber por que, a 
tarde se tornou um tanto amarga. Emma sentia-se desapontada e infeliz.
      Viu que ele estava distrado, olhando a gua como se estivesse perdido em seus 
pensamentos.
        Quer voltar agora?  ele disse, pouco depois.
        Penso que  melhor.
      Ele limpou um pouco de cinza de sua cala e levantou.  Inesperadamente, segurou o 
queixo de Emma, fitando-a intensamente.
  No se diminua, Emma Maxwell  ele disse suavemente.  Voc  uma garota 
bonita e com os cuidados certos pode ser bastante atraente, sabia disso?
 No sou uma garota!  ela respondeu com certa infantilidade, e ele levantou as 
sobrancelhas escuras.
  No  mesmo? Talvez no, para os rapazes da sua idade, mas para mim parece 
incrivelmente jovem e ingnua. Eu nem me lembro de um dia ter sido to jovem assim! s 
vezes me sinto como se tivesse  nascido velho.
  As mulheres amadurecem mais cedo do que os homens  respondeu depressa.
  Est bem, admito isso. Mas como j disse antes, Celeste  muito mais prxima de 
mim, em idade.
  Eu no falei em idade  disse Emma, com o rosto queimando quando ele a 
soltou.
  No, mas voc  muito sensvel  concluiu num tom enigmtico, dando partida no 
motor.
      Emma deu um profundo suspiro, levantou e foi para perto dele.
        Diga-me honestamente. Por que me trouxe para c hoje?
        Porque  uma garota e porque gosto de voc.
        Essa  a nica razo?
  O que quer que eu diga?  Ele sorriu.  Eu no me envolvo emocionalmente 
com adolescentes, no importa o que voc possa ter ouvido de sua charmosa madrasta.
  Voc no podia ter sido mais claro!  ela exclamou, quase chorando.  Oh, eu 
queria nunca ter vindo!
      Cesare riu.                                                               
  Voc esperava ter um flerte comigo? Em seu corao, talvez voc seja  apenas 
outra  turista que veio a Veneza  para  encontrar o romance de sua vida e depois voltar para 
a Inglaterra e merguthar na rotina de cada dia?
   claro que no! Fiz uma reviso de minha primeira impresso sobre voc, signor 
conde, pois tinha achado que era um cavalheiro.
      Em pouco tempo, j estavam de volta aos intrincados e estreitos canais e logo depois 
chegavam ao ancoradouro do Palcio Cesare.
      Emma no esperou pela ajuda dele para sair do barco, e pulou para fora, enquanto 
ele amarrava a corda. Cesare a alcanou quando ela j chegava ao p da escada.
        Notei que est zangada comigo.
 Meus sentimentos por voc no existem  ela respondeu subindo o primeiro 
degrau com dignidade, mas a sola de suas sandlias estavam molhadas e ela escorregou 
para trs, perdendo o equilbrio desastradamente. Teria cado se ele no estivesse logo 
atrs dela, pronto para evitar um acidente. Ela caiu contra ele, sentindo a firmeza de seu 
corpo. Os braos dele a envolveram por um minuto, e suas pernas amoleceram. Nunca em 
sua vida ela havia experimentado to forte excitao. Emma percebeu pelo aumento do 
ritmo da respirao dele que o contato o tinha perturbado tambm. Se ela tivesse se virado 
naqueles braos, certamente teria encontrado a boca dele, pronta para receber a sua, e 
ento teria sido terrivelmente difcil resistir  tentao. Mas ela se soltou sem virar e ele se 
afastou abruptamente. Sem olhar de lado, Emma voou escada acima, e o forte bater de seu 
corao ecoava em seus ouvidos.
      
      
                                               CAPTULO V
      
      
      Cesare saiu do escritrio de Marco Cortina, no corao de Fondaco dei Tedeschi. Ele 
caminhava pela multido que parecia nunca e dispersar a nenhuma hora do dia, dirigindo-se 
para a ponte Rialto.
      Misturando-se aos turistas, era capaz de passar quase sem ser notado, e isso lhe 
servia admiravelmente. No queria chamar a ateno sobre sua presena nessa parte da 
cidade.
      Passando pela ponte, ele foi pelas inmeras caladas e becos, na direo da praa 
So Marcos. Olhou seu relgio; eram quase onze horas e ele tinha prometido encontrar 
Celeste em um dos cafs de calada que existem no quarteiro.
      Ela faria algumas compras antes disso, coisa que ele achou muito conveniente. Era 
importante que encontrasse Marco e lhe passasse as informaes sobre o que tinha 
descoberto.
      Pensava tambm na bobagem de ter permitido que as hspedes de sua av 
permanecessem no palcio, quando tanta coisa estava em jogo. Agora, a menos que se 
comportasse indelicadamente, o que no era de seu feitio, teria que aceitar a presena delas 
o melhor que podia. Ele duvidava que algum acreditasse em sua completa Indiferena com 
relao aos planos de sua av, e sua tentativa de se fingir interessado por sua enteada tinha 
falhado desastrosamente.
      Lembrando-se da tarde que tinha passado com Emma, dois dias atrs, ele se 
amaldioava novamente. Tinha cometido um gesto completamente idiota e estpido e tinha 
apenas conseguido destruir qualquer amizade que pudesse vir a ter com a mocinha.
      Mocinha? No tinha havido nada de infantil na maciez e suavidade de seu corpo 
quando ele a tinha apertado nos braos, e a reao dela tinha sido violentamente adulta.
      Ele admitia um tanto cinicamente que, em qualquer outra circunstncia, poderia achar 
bastante divertido ter um caso com Emma. A simplicidade da garota tinha agido 
estranhamente sobre ele, e at teria gostado de levar a experincia mais adiante.
      Celeste era outra coisa. Era muito linda, muito rica e sua idade estava prxima da 
dele. Sentia que ela estava bem interessada nele para rapidamente estreitar as relaes de 
ambos para algo mais profundo, mas pela primeira vez em sua vida, seu desejo de posse 
estava entorpecido. Conhecera em sua vida muitas mulheres bonitas: de fato, sempre tinha 
considerado a beleza fundamental para o desejo fsico, mas parecia que agora estava 
descobrindo que no era assim. A menina Emma no era bonita, mas seu corpo alto e 
esguio como o de uma manequim era bastante desejvel, embora ela no se desse conta 
disso. Seus cabelos, macios como seda e perfumados, pareciam pedir para ser acariciados. 
Ele tinha sentido as mos macias e imaginou o prazer que lhe dariam deslizando sobre seu 
corpo, e tambm toda a sensualidade que ela poderia experimentar em seus braos.                                              
 Cesare! Cesare!  ele dizia a si mesmo irritado.  Que tipo de homem voc se 
tornou, para ficar to envolvido por uma garota de apenas dezenove anos. Pense nos seus 
quarenta!  Em sua autocrtica, pouco importava que esse envolvimento pudesse ser pu-
ramente mental, alm de fsico, pois sua religio, que ele levava a srio, pregava que o 
pensamento era to pecaminoso quanto a ao. Chegou  praa e acendeu um cigarro 
antes de ir encontrar Celeste, tentando controlar estes pensamentos que o perturbavam. 
Sua nica esperana contra seus sentidos desgovernados era se envolver com Celeste, 
para que ela tirasse de sua cabea todos os devaneios relacionados a Emma Maxwell. Mas 
isso representava um tipo diferente de perigo.
      Celeste estava esperando por ele, tomando um drinque e segurando um longo cigarro 
americano entre seus dedos de unhas perfeitas e vermelhas. Usava um vestido de linho 
azul, com mangas trs quartos, decote redondo. Seus cabelos, no muito longos, eram 
levemente encaracolados. Uma  transparente e pequenina  echarpe  de  chiffon estava 
amarrada de lado sobre seu pescoo. Era jovem, linda e elegante e tinha completo controle 
de si mesma. Ela o olhou com prazer, quando ele parou diante de sua mesa.
  Vidal! Voc est atrasado!  J so onze e cinco.  Seu tom era levemente 
reprovador.
  Sinto muito. Fiquei retido mais do que esperava.  Cesare sentou-se ao lado 
dela, chamando o garom com um estalar de dedos.
       Estou perdoado?
      Celeste deixou que ele pegasse sua mo.
        Como  voc, eu perdo. Onde esteve?
  Resolvendo negcios  respondeu com naturalidade.  Agora, que vai tomar? O 
mesmo? Mais tarde Celeste sugeriu que eles poderiam ir visitar a baslica.
        Tem certeza mesmo que quer ir?  Cesare parecia relutante.
   claro, meu querido. No posso vir a Veneza sem ir ver a Baslica.
      Ento eles seguiram uma fila de turistas e entraram no mundo da arquitetura 
veneziana e bizantina, incrustada de mrmore e maravilhosos mosaicos dourados. Havia to 
maravilhosa profuso de esttuas e pinturas que era difcil para qualquer pessoa ver tudo de 
uma vez.
  Partes desta igreja datam do sculo IX  comentou Cesare, olhando para 
Celeste. O que viu no era nada parecido com o encanto que ele tinha observado no rosto 
de Emma, mas sim uma expresso meio aborrecida, como se toda a beleza que a rodeava 
no tocasse emocionalmente. 
 Velhos prdios no so o meu fraco  comentou Celeste com algum alvio, 
quando Cesare sugeriu que ela j tinha visto o suficiente por um dia.  Sabe, eu 
simplesmente no consigo cair em xtase como certas pessoas quando vejo pinturas  ela 
continuou.  Quero dizer, eu possuo alguns quadros famosos que pertenceram ao meu 
falecido marido Clifford, mas creio que olho para eles mais como um investimento.  Deu 
um risinho infantil.  Voc entende muito de pinturas, Vidal?
        Um pouco  ele respondeu, um tanto friamente.
 Eu ofendi voc, Vidal? No tive essa inteno, honestamente querido, mas acho 
que sou moderna demais. Me d vidro, concreto e uma boa madeira e estarei feliz.
      Cesare balanou a cabea.
  Non importa  replicou, pela primeira vez esquecendo e falando em italiano com 
ela. Celeste ficou irritada percebendo que em alguma coisa o tinha desapontado.
      Ela enfiou o brao no dele.
  Vidal, onde estamos indo agora? \oc me falou em almoo, eu creio.
  Almoo?  Vidal sacudiu os ombros.  Ento vamos voltar ao palcio para 
almoar?
      Celeste percebeu que era melhor no argumentar sobre isso.
        Est bem, mas vamos de gndola, sim?
        Se assim deseja...
      A gndola movia-se devagar sobre as guas calmas e Celeste relaxou, satisfeita por 
ter Cesare ao seu lado. Os assentos almofadados eram muito confortveis e bastante 
estreitos para facilitar uma aproximao, o que era bastante romntico, principalmente  
noite. Contudo era pleno meio-dia, mas assim mesmo Celeste estava bem consciente do 
homem ao seu lado e tinha certeza de que ele no podia ignorar sua presena.
  Cesare  ela murmurou, se desculpando.  Sinto muito, sei que aborreci voc, 
mas no sou assim. Diga que me perdoa.
      Vidal Cesare olhou para ela. Assim de perto, em plena luz do sol ele podia ver as 
pequenas rugas que se formavam ao redor dos olhos e nos cantos da boca de Celeste, 
revelando que ela no era to jovem assim quanto queria aparentar. Mas ainda era bastante 
atraente e bonita e ele no seria um homem se no pensasse assim.
      Mas por uma razo inexplicvel, ela lhe era repulsiva. Era difcil para Cesare inclinar-
se galantemente, permitindo que ela pousasse seus lbios no rosto dele.
  Vidal  ela disse baixo.  Voc sabe por que sua av me chamou aqui, no 
sabe?
        Sim, eu sei.
       Ento?
 Acho que no devemos apressar as coisas, Celeste  ele respondeu gentilmente. 
 Vamos devagar. Ns temos todo o tempo do mundo.
      Os olhos de Celeste se apertaram. Era uma coisa nova para ela ser rejeitada; sempre 
fora ela a dar as cartas. Ela se endireitou no assento e afastou-se dele, ficando sentada 
rigidamente, embora houvesse duas manchas coloridas em seu rosto, coisa que Emma teria 
sido capaz de diagnosticar como um primeiro sinal de exploso. Mas ela no ia perder a 
calma; isso no funcionaria com ele, nunca. No pelo monos at que estivessem casados. 
Ento, quando ela fosse a condessa Cesare, ele no seria capaz de trat-la dessa maneira.
      Cesare a olhava de lado,  meio  intrigado com  sua  atitude.   Ela agia  como  uma  
criana  ultrajada,  simplesmente  porque  as  coisas no estavam indo exatamente a seu 
gosto. Mordendo os lbios em um esforo para controlar seu gnio, ela disse:   No 
existem umas ilhas ao redor onde se pode ir tomar banho de mar? E Murano? No  l que 
fazem aqueles maravilhosos cristais?  Cesare acendeu vagarosamente um cigarro.    Sim. 
Existem algumas ilhas. H tambm o Lido. 
 No. Algum lugar retirado. Banhar-se no meio de uma multido no me atrai nada. 
Preferia algum lugar deserto para fazermos um piquenique. Podemos fazer isso, Vidal? 
Talvez amanh?
      Cesare fechou os olhos, irritados com a fumaa do cigarro.
       Quer dizer. . .   apenas ns dois? 
       Por que no?
 Eu pensei que talvez sua enteada pudesse tambm aproveitar essa oportunidade. 
Afinal ela no tomou um banho de mar desde que chegou aqui. E gente jovem adora uma 
praia, no acha? Celeste passou a lngua nos lbios secos.
 Emma pode se divertir sozinha  replicou asperamente.  No sou sua bab.
 Mesmo assim, penso que no  muito delicado deix-la em casa novamente o dia 
todo, com minha av. Sei que elas se do muito bem: vov esteve me contando ontem  
noite como Emma  boa aluna, atenta e inteligente. Minha av est ensinando a ela um 
pouco sobre arte antiga, como reconhecer certos artistas e coisas assim; sua enteada 
parece gostar disso.
  Pare de cham-la de minha enteada  disse Celeste com os dentes apertados.
        Por qu? Ela no ?
        Claro que ! Eu no traria uma impostora para sua casa.
  Ento, muito bem! Veja, Celeste, minha cara, voc est no palcio h vrios dias e 
durante esse tempo Emma teve poucas oportunidades de sair. Alm da primeira tarde,  
claro. Ns estivemos juntos na lagoa.
      Os olhos de Celeste se tornaram frios e cortantes.
  At onde eu soube, Emma tinha ido fazer compras, naquela primeira tarde. Como 
tem feito outras vezes.
      Cesare j se perguntava por que diabos teria contado isso a Celeste.
  Eu encontrei com Emma quando saa. Ela no ia fazer nada, nem eu. Ento me 
ofereci gentilmente para lhe mostrar um pouco de Veneza. Isso foi tudo.
      Celeste olhava para longe, raivosa. Pelo seu maxilar contrado, Cesare teve certeza 
de que Emma ia ouvir poucas e boas "gentilezas".
- Celeste  ele disse, propositadamente em tom meloso e conciliador.  Cara mia, 
foi um passeio perfeitamente inocente. Que mais podia ser? Se ns dois vamos nos tornar 
mais. . . ntimos, no  natural que eu deva conhecer melhor a garota que vai ser. .. bem...  
tambm minha enteada?
      Ele enfatizou a palavra de tal modo que Celeste ficou desarmada. Quando ele queria 
ser charmoso ningum era capaz de resistir. Quando chegaram, Cesare achou que Celeste 
provavelmente j tinha esquecido o assunto.
      Mas ele teria ficado menos satisfeito se pudesse testemunhar a cena que aconteceu 
no quarto de Celeste naquela tarde, depois que o almoo tinha terminado e a condessa foi 
descansar. Celeste chamou Emma em seu quarto, sob o pretexto de consertar uma lingerie 
para ela. Assim que a garota fechou a porta, Celeste virou como um gato pronto para pular 
sobre um rato.
  Sua mentirosa! Tenho vontade de colocar voc sobre meus joelhos e te bater. 
Ento, sua diabinha, est querendo me fazer de idiota!
  Tente me bater. Celeste. Tente!  respondeu Emma calmamente, aparentando 
mais tranqilidade do que realmente sentia. Era ridculo imaginar uma criatura pequena 
como Celeste atacando a eIa, muito mais alta, com um chinelo.
  No banque a esperta comigo, Emma!  avisou Celeste ameaadoramente.
 Bem, o que  agora? O que h de errado? O que foi que eu fiz para causar tal 
fria?
 Saiu com Vidal, e isso est errado! E me disse que esteve fazendo compras.
      O rosto de  Emma queimava, mas ela conseguiu  conservar sua dignidade.
  Uma correo, por favor! Eu disse que ia fazer compras quando sa daqui. 
Quando eu voltei, voc no perguntou onde estive.
  Sua petulante!  exclamou Celeste.   claro que no perguntei. Naturalmente 
achei que tinha ido fazer compras.
  Bem, e da Celeste? No h nada a contar sobre isso. O conde me levou para dar 
uma volta de barco. Fomos at a lagoa e voltamos.  tudo. Ele foi muito educado e muito 
agradvel e ns nada fizemos do que pudssemos nos envergonhar.
      Celeste pareceu ficar ligeiramente mais calma.
  Contudo, no vai fazer isso de novo, entendeu? Se o conde convidar voc 
novamente, vai recusar, no importa o quanto isso parea inocente, est entendendo bem?
 Entendi que voc  uma mulher muito ciumenta  respondeu Emma.  Ah, 
porque no me deixa voltar para casa, para a Inglaterra? No estou fazendo nada aqui! Me 
deixe ir embora, por favor!  Est fazendo muita coisa do meu interesse!  retrucou Ce-
leste, comeando a parecer mais convencida agora.  O conde me disse que a condessa 
est gostando de voc, e que est lhe ensinando um pouco de arte.
 Sobre pinturas. Tintoretto e Canaletto fizeram muitos de seus trabalhos aqui. A 
condessa est me falando sobre eles.  muito interessante. Mas ainda assim, gostaria muito 
de voltar para casa.
  Quem determina quando voc vai para casa sou eu!  Celeste concluiu com 
aspereza.  Agora pode sair. Quero descansar. Tive uma manh bastante agitada.
      
      
                                                       CAPTULO VI
      
      
      Nessa noite, o conde Cesare levou Celeste para jantar fora. Eles tinham sido 
convidados para um baile no palcio de um amigo dele e, junto com alguns outros amigos 
mais ntimos, para o jantar antes do baile.
      Celeste usava um brilhante vestido prateado, uma fortuna em jias no pescoo e no 
pulso, Emma, de sua janela, os viu entrar na grande gndola, com cortinas cor de vinho.
      O conde estava extremamente elegante de smoking, mas no parecia to animado 
quanto sua acompanhante.
      Nos ltimos dois dias, ele encontrou Emma vrias vezes e agiu como se nada tivesse 
acontecido entre eles, como se nunca tivessem se encontrado fora da vista da condessa e 
de Celeste. Ela, no entanto, no conseguia esquecer o incidente. Cada vez que ele chegava 
perto, recordava o calor daquele corpo, e o cheiro msculo que emanava dele.
      Na manh seguinte, Celeste estranhamente mudou sua rotina e tomou seu caf no 
quarto. Desde sua chegada, sempre tomou caf na sala. Provavelmente apenas para ver o 
conde. Mas naquele dia Anna anunciou  condessa que a signora estava com uma forte dor 
de cabea e que pedia desculpas por no descer.
  Mas claro! Por favor, Anna, diga  senhora que fique na cama o quanto desejar, e 
que ela deve pedir tudo de que precisar.
        Sim, senhora  concordou  Anna e foi cumprir as ordens.
      Quando voltou dirigiu-se ao conde Cesare, que estava sentado bebendo 
vagarosamente uma xcara de caf e lendo o jornal.
  Senhor, a cesta do piquenique que mandou preparar no vai mais ser necessria, 
no ? Cesare levantou os olhos do que estava lendo.
  Sim, Anna. Vai ser necessria, sim. A srta. Emma e eu vamos us-la. 
      A condessa olhou espantada para o neto.
        Vai levar Celeste ao piquenique? 
       Ia, mas como j ouviu, ela no pode ir. 
      A condessa mordeu o lbio.
  E agora pretende levar. . . Emma  ela insistiu, querendo que o neto entendesse 
sua insinuao sem precisar ser mais clara. Emma estremeceu, apesar do calor da manh. 
As palavras do conde a alegraram e assustaram ao mesmo tempo. Ficou sem jeito e teve a 
certeza de que seu rosto estava denunciando suas emoes. Cesare se mexeu inquieto.
        Sim, se Emma desejar ir,  claro. Voc quer, no Emma?
        Onde iremos?
  Vamos a uma ilha que conheo, na lagoa. Uma das pequenas e desertas ilhas de 
que falei outro dia. H uma pequena cabana para se trocar a roupa e a praia  ideal para 
nadar. A gua  morna e teremos bastante tempo para nadar e tomar banho de sol.
      A condessa segurou o brao do neto.
 Cesare. . . tem certeza que...  A voz dela sumiu.  Est tornando difcil para 
Emma recusar seu convite, mesmo que ela no queira ir.  Ela olhava ansiosa para a 
enteada de sua futura nora.  Emma, tem certeza que quer ir com Cesare?
      A condessa queria que ela recusasse, e Emma tambm sabia que devia recusar, Se 
fosse com ele, criaria uma situao insustentvel
      com Celeste. Mas a verdade  que queria ir, passar algumas horas sozinha com 
Vidal, e pouco se importava com o que Celeste pudesse
      fazer ou dizer quando voltassem.
  Eu gostaria muito de ir  ela respondeu, recusando-se a olhar para Cesare.  
Isto , se no se importa, contessa.
  Claro que no fao objeo. Como poderia?  Evidentemente estava  frustrada, 
mas as regras da   nobreza no permitiriam que agisse de outro modo.
        Voc tem um maio?  Cesare perguntou a E.mma.
        Sim,  tenho.
  Ento v busc-lo, antes que algum ache algum motivo para no irmos. A cesta 
est pronta, Anna?
        Oh, sim, senhor! Como pediu!  Anna respondeu depressa.
        Ento traga, Anna. Emma, j terminou seu caf?
      Emma achava que seria melhor se despedir de Celeste, mas Anna tinha dito que ela 
estava descansando com uma compressa nos olhos e pediu para que ningum fosse 
incomod-la. Percebeu que Anna tinha adivinhado tudo e queria evitar qualquer imprevisto 
de ltima hora.
      Emma estava to encantada com o espetacular cenrio da manh, com o sol 
brilhando nas torres e refletindo na gua dos canais, que nem se preocupou em conversar 
com Cesare. No entanto, no ignorou sua presena um nico segundo. Todo seu corpo 
tremia com a  proximidade daqueles  braos  bronzeados.
      Ela havia trocado o vestido por uma cala branca e justa, e uma camiseta estampada.
      Finalmente as ilhas da cidade foram ficando para trs e Emma viu-se forada a dizer 
alguma coisa.
        Talvez eu devesse ter recusado seu convite, no acha?
  Minha doce Emma, no comece de novo, si? Pensei que tivssemos concordado, 
na ltima vez que eu sa com voc, que ramos amigos e nada mais. Como tal, quero 
conhecer voc melhor. Saber o que realmente a interessa.
  Tudo me interessa  respondeu ela, se esquivando deliberadamente de uma 
resposta.  E a voc?
  Muitas coisas!  ele respondeu sorrindo.  Como voc, sou bastante aberto a 
novidades.
   Pare de caoar de mim!  ela disse aborrecida. No estava acostumada a esse 
tipo de dilogo onde tinha que ficar sempre na defensiva.
  Por que eu estaria fazendo isso? Emma, por que no aceita as coisas como elas 
so? Por que voc tenta encontrar razes para tudo? Se decidi trazer voc para um passeio, 
isto no  to terrvel assim, ? Voc teve a chance de recusar, por que no o fez?
  Eu acho que voc est tentando provocar cime em Celeste  respondeu Emma. 
 Talvez voc se divirta em atormentar os outros. Como seus ancestrais, talvez goste de 
encontrar novos meios de tortura.
      Cesare olhou srio para ela, depois caiu na risada, sacudindo a cabea.
  Oh, Dio! Voc insiste em ser teimosa, no? Talvez interesse a voc saber que 
apesar de nossa diferena de idade, gosto da sua companhia, por voc mesma. E acredite, 
no tenho desejo algum de despertar a fria de sua madrasta. Ao contrrio, pois minha av 
espera grandes coisas de nossa unio.
        Eu sei  disse Emma. virando de costas para ele.
      Cesare tirou um mao de cigarros do bolso e ofereceu um para ela. Emma aceitou e 
ele passou o brao por trs dela, colocando o mao perto de sua mo. Emma pegou um e 
imediatamente se afastou para longe dele.
      Furioso, ele estendeu o isqueiro para ela.
   melhor acender voc mesma, j que no consegue se livrar dessa sensao de 
terror cada vez que chega perto de mim. Repito, Emma! Voc tem idade para ser minha 
filha.
      Ela pegou desastradamente o isqueiro, quase o deixando cair no canal e Cesare 
bufou impaciente, olhando para o alto.
  Me d isso!  disse, pegando o isqueiro e acendendo-o facilmente. Emma 
segurou a mo dele com a ponta dos dedos, e estremeceu com esse simples contato; a pele 
dele era quente, deliciosamente quente! Levantou os olhos e encontrou os dele com uma 
inesperada e penetrante intensidade. Ento ele baixou suas plpebras, acendeu seu prprio 
cigarro e guardou o isqueiro de volta no bolso de sua cala.
      Emma aspirou a fumaa e olhou para a cabine abaixo deles. Era pequena, mas 
superfuncional. Tinha uma mesa de madeira, um pequeno fogo, uma pia coberta, e dois 
bancos. Nas paredes, pequenos armrios e prateleiras cheias de livros.
      Cesare olhou para ela e disse:
  Por que voc no faz um caf para ns? Vai encontrar tudo o que for preciso nos 
armrios.
      Satisfeita por ter algo para fazer. Emma desceu os degraus da cabine. Enquanto a 
gua esquentava deu uma olhada nos livros, mas infelizmente eram todos em italiano. 
Comeou ento a abrir as portas dos armrios para procurar o p e o coador de caf. Um 
dos armrios era um bar, com um completo sortimento de bebidas.
      O conde evidentemente era um homem que gastava muito. Ser que ele no se 
importava de ter que se vender por tal preo em troca de luxo e conforto? Emma suspirou, 
balanando a cabea. Isso soava detestvel para ela. No podia sentir outra coisa seno 
desrespeito por um homem que concordava em se vender dessa maneira. No entanto, tinha 
vontade de encontrar uma razo decente para o que ele estava fazendo.
      Debaixo da pia, encontrou apenas uma caixa de violo, a mesma que ele carregava 
no dia em que o tinha visto entrar silenciosamente no palcio. Ou seria outra? Emma tirou-a 
de l. Tinha aprendido a tocar um pouco de violo e adoraria checar seu talento depois de 
tanto tempo. Ser que ainda se lembrava de alguma coisa?
      Levantando a tampa, ficou espantada ao ver um equipamento de mergulho no lugar 
do violo. O macaco de borracha, culos e equipamentos de respirao. Faltavam apenas 
os cilindros de oxignio. Que coisa!
        Basta! Diol Que diabo est fazendo?
        Signore, . .    ela gaguejou. Cesare desceu.
  Perguntei o que est fazendo?  ele perguntou furioso.  Como se atreve a ficar 
fuando por a como uma abelhuda?
      O rosto de Emma queimava de vergonha.
        Sinto muito, signore.
  Tinha que mexer a? Eu no dei permisso para que investigasse minhas coisas 
particulares!  ele berrou.
      Emma achou um absurdo ele se alterar desse jeito por to pouco.
  No exagere, signor conde! O que foi que eu fiz de to grave, afinal? Abri apenas 
uma velha e idiota caixa e no toquei em nada!
  Scusi, signorina  disse friamente.  Desculpe, fui rude, sim, mas no futuro 
ficarei grato se no deixar sua curiosidade interferir na minha vida.
  Peo desculpas  ela disse devagar , vou fazer o caf. A gua j est fervendo.
  Esquea isso, venha. Vamos tomar uma lata de cerveja em vez de caf. Est 
muito quente e estou com sede.
      Emma subiu atrs dele, para o deck superior, sentou na popa e aceitou sem graa o 
copo que ele lhe ofereceu. Ela sentia-se completamente estpida e tinha certeza de ter 
estragado o resto do dia. Cesare sentou-se ao seu lado. Ele engoliu um grande gole de cer-
veja com evidente prazer e limpou a boca com as costas da mo. despreocupadamente.
  Humm. . . isto est muito bom!  ele disse, rindo de repente.  Emma, tudo bem! 
Tudo bem! j pedi desculpas, no pedi? s vezes na vida da gente acontecem coisas que 
no se pode explicar. Existe uma razo, mas voc no pode d-la.
      Emma bebeu um gole de cerveja e olhou para ele:
        No sei o que quer dizer!
  Eu sei. Mas algum dia talvez voc saber. Tudo que posso dizer agora  que 
quero que voc esquea completamente que viu aquela caixa de violo e seu contedo, si?
        Esquecer?  ela perguntou franzindo as sobrancelhas.
        Isso mesmo. Ser pedir muito? 
      Emma apenas balanou a cabea.
        Bom. Ento somos amigos de novo?
 Agora, tenho sua palavra de que no vai mencionar a ningum esse incidente? 
Quero dizer ningum mesmo!
  Claro!  respondeu depressa, passando as mos nos cabelos que esvoaavam. 
e desviando sua ateno para as guas da lagoa.
      A ilha que Cesare escolheu para o piquenique era pequena e deserta e a cabana 
exatamente como ele tinha descrito. Assim que chegaram Cesare tirou a cala e a camisa e 
deu um mergulho nas guas azuis.
      Emma investigou a cabana, enquanto ele nadava. Tinha um aposento s, e apenas 
uma janela cujo trinco parecia estar emperrado. Havia vrias cadeiras de vime, uma mesa e 
um armrio vazio.
      Ela saiu da cabana quando viu que Cesare vinha caminhando pela areia quente da 
praia. Sentiu um arrepio ao ver aquele corpo bronzeado brilhando, molhado. Ele usava um 
pequeno calo azul e pingava gua, com seus cabelos molhados, puxados para trs, gru-
dados na cabea.
      Ele pegou uma grande toalha cor de laranja e comeou a se enxugar.
        Bem, vai entrar na gua?  perguntou a Emma.
        Tenho que mudar a roupa  ela disse, olhando para a cabana.
  Ainda  cedo. Venha e sente-se. Pode entrar na gua mais tarde, si?  ele disse, 
percebendo-lhe a hesitao.
      Emma concordou. O conde Cesare era boa companhia. Conversaram muito, e foi 
difcil para ela interpretar o papel de enteada protegida. Ficou tentada a contar a ele toda a 
verdade sobre seu treinamento de enfermagem no hospital em Londres. Mas se conteve
      Tinha que fingir todo o tempo, mentindo at que conhecia os Estados Unidos, e 
rezando para que no estivesse dando respostas diferentes das de Celeste. Quem sabia o 
que ela teria contado?
      Cesare deitou-se preguiosamente na toalha, estudando-a atravs dos olhos meio 
fechados devido ao sol forte. Parecia muito mais jovem do que realmente era, 
provavelmente porque compensava a vida bomia que levava, praticando muito esporte. Por 
isso, tinha sade e vitalidade.
      Emma sentou-se na areia abraando os joelhos e olhando para a gua ao longe, que 
reluzia.
  Voc no est ainda pensando naquele incidente na lancha, est?  ele 
perguntou.
  No, pensava em muitas coisas, mas no nisso. Gostaria muito de saber falar 
italiano. Seria bom poder conversar com pessoas diferentes em sua prpria lngua.
      O conde riu.
  E ns somos. . .   minha av e eu...   to diferentes assim?
  Sim. Pelo menos... bem... de qualquer forma, gostaria de aprender.
        Gostaria que eu lhe ensinasse?
        Voc faria isso?
   claro! Talvez seja mais fcil para voc aprender palavras individuais em primeiro 
lugar. Um vocabulrio, si?  ele olhou ao redor.  Por exemplo, a praia  Ia spiaggia; esta 
toalha  L'asciugamano; a costa  Ia costa.
      Emma repetia as palavras depois dele, e ia perguntando os nomes de cada coisa que 
via, relaxando completamente pela primeira vez. Riram juntos da horrvel pronncia de 
Emma e s pararam com as lies ao meio-dia e meia.
  Acho que vai ter que deixar a natao para mais tarde  disse ele.  Vamos 
almoar agora. O que gostaria? Galinha? Presunto? Lagosta? Anna sempre arruma comida 
para um exrcito.
      Emma aceitou lagostas e salada, acompanhando os pratos com pequenos pezinhos 
com manteiga. Depois comeram salada de frutas e beberam um delicioso vinho branco, que 
Cesare elogiou muito.
  Estava uma delcia!  ela disse no final do almoo, quando Cesare jogou os 
restos de comida dentro de um lato, perto da cabana.  Estou me divertindo muito.
  Isso  que  bom!  Ele sorriu, pegando seu mao de cigarros. Depois deitou 
preguiosamente, colocando seus culos de sol sobre o nariz.
      Emma ficou triste ao pensar que aquele dia to excitante ia acabar. E o pior: quando 
Celeste descobrisse que eles tinham estado juntos ficaria completamente furiosa. Emma no 
estava preocupada com isso, mas sim com o possvel efeito sobre suas relaes com a 
condessa.
      A amizade delas era bastante recente, e no resistiria a uma complicao como essa. 
Bem, no adiantava pensar nisso agora. O que interessava era que o conde evidentemente 
tambm estava se divertindo. Ele a tratava como futura enteada, mas o que ele no sabia 
era que quando casasse com Celeste, ela seria mandada de volta imediatamente para o 
hospital, provavelmente para nunca mais voltar  Itlia.
      Mas essa era uma perspectiva que no desagradava Emma. De modo algum ela 
seria capaz de viver junto com Celeste e Cesare, sabendo que eles tinham casado e 
levavam uma vida ntima juntos e felizes, provavelmente. A  idia a repugnava.
      Levantando silenciosamente para no perturbar o sono de Cesare, ela foi  andando 
pela  praia, passou  pela cabana  e  continuou  at um grupo de arbustos e rvores que 
formavam o centro da pequena ilha. Era na verdade um pequeno atol, um dos muitos que 
havia por ali, onde era relativamente fcil encontrar um lugar deserto. Do outro lado da ilha 
tinha outra praia, no to bonita, mas sombreada. Quando Emma se virou olhou para onde o 
conde estava deitado, no o viu mais. Recusando-se a se deixar dominar pelo pnico, foi 
olhar na cabana, depois comeou a procurar por  toda  parte.  Foi ento que viu a lancha 
indo pela lagoa a toda velocidade. Apertando os olhos contra a claridade, Emma no 
acreditava no que via. Era a lancha de Cesare. Ele tinha ido embora, abandonando-a na ilha 
deserta.                                                             
      Suas pernas fraquejaram e ela caiu de joelhos na areia, tremendo. Oh, Deus, ela 
pensou. O que ele estaria pretendendo fazer? Como ele podia deix-la assim, sem uma 
palavra?
      Ela achou que ia chorar, mas se forou a permanecer calma. Tinha que pensar em 
algo e pensar coerentemente. Coisas como essa simplesmente no aconteciam! Tinha que 
haver alguma razo e se ele tinha deixado a cesta da comida e a toalha,  porque pretendia 
voltar. Com esse pensamento ela se acalmou, envolvendo o prprio corpo com os braos. 
Seu lindo dia tinha sido estragado e agora o que ela queria era chorar muito, muito. . .
      Decidida, esfregou a mo sobre os olhos molhados. No ia se comportar como uma 
idiota. Se o pior acontecesse, ela podia sempre fazer sinal para algum barco que passasse e 
alm de tudo ainda havia muito tempo. Eram apenas trs horas da tarde.
      Resoluta, abriu sua sacola, tirou seu maio de uma peo, que tinha comprado em 
Londres, pouco antes de viajar. Ficava muito bem em seu corpo delgado e combinava com 
sua pele clara e seus cabelos loiros.
      Vestiu-se na cabana e foi at a gua. Estava morna, linda e deliciosa, em 
comparao com as guas frias da Inglaterra. Nadou at bem longe da praia, em 
movimentos lentos, pois estava destreinada. Depois de algum tempo, virou-se de costas e 
flutuou, boiando na gua. No querendo se arriscar a ter cibras. nadou de volta  praia e foi 
at a areia. S nesse momento se lembrou que no tinha trazido uma toalha para se 
enxugar. Relutante, pegou a enorme toalha de Cesare e embrulhou seu corpo molhado.
      A toalha estava quente do sol e a envolveu deliciosamente como um cobertor. Ela 
podia sentir vagamente o leve perfume da loo de barba que ele usava e um cheiro 
indefinido daquele corpo msculo.
      Sentiu medo subitamente, no apenas por estar sozinha, mas por causa de seus 
sentimentos pelo conde. Estava pensando demais nele, permitindo que ele tomasse conta 
de todos os seus pensamentos, excluindo tudo o mais. Ele era de Celeste e no dela, afinal 
de contas. Era Celeste que ele queria, Celeste com seus milhes de dlares, para que ele 
pudesse reconstruir seu decadente palcio e retomar os tesouros penhorados da famlia. 
Parece que no importava se Celeste fosse mandar instalar aquecimento, carpetes e at 
talvez um elevador, quem sabe? Porque quando estivessem casados suas vidas seriam 
uma s e a vontade dela iria sempre prevalecer. Se imaginar Cesare com Celeste agora j 
era bastante doloroso, como seria depois que eles estivessem casados?
      Amargurada, Emma enterrou o rosto na toalha, sentindo lgrimas quentes correndo 
pelo seu rosto. Ela se desprezava por se sentir assim, por ter essas estpidas emoes. 
Como podia agir dessa maneira? Por que no conseguia acabar com a depresso que 
tomava conta dela?                                                          
        Deitou-se de lado na areia, envolta na toalha, suspirando profundamente. O sol 
estava quente e ela fechou os olhos. Precisava escapar da inutilidade de seus pensamentos 
sobre um homem que no s estava fora do seu alcance, como tambm pouco se importava 
com o que acontecesse a ela.
      Importava-se to pouco que nem mesmo se dera ao trabalho de explicar coisa 
alguma, antes de larg-la ali sozinha em uma ilha deserta, no meio da lagoa.
      
      
                                                      CAPTULO VII
      
      
      A lancha deslizou com seu prprio impulso para o ancoradouro, com o motor 
desligado, e o conde Cesare pulou para a areia, amarrando-a.
      Foi andando pensativo, concentrado em seus prprios pensamentos. Acendeu um 
cigarro e estava quase pisando sobre Emma, quando reparou no montinho embrulhado na 
toalha cor de laranja, na cabea apoiada no brao dobrado. Estava adormecida, os olhos 
inchados de tanto chorar e ainda havia lgrimas em seu rosto.
      Com uma exclamao abafada ele jogou fora o cigarro e ajoelhou-se ao lado dela. Ele 
tinha sido cruel e bruto, e devia ter previsto que partir sem avis-la daquele jeito ia deix-la 
perturbada; mas no esperava que fosse abalar tanto a garota. Ele tinha se tranqilizado 
pensando que, logicamente, ela no ia supor que ele a largaria na ilha.
  Emma  ele chamou baixinho, puxando um pouco a toalha. Cesare, acostumado 
a admirar as curvas de um corpo feminino, sentiu-se atrado por Emma e no foi capaz de 
evitar o impulso de passar carinhosamente os dedos sobre a pele suave do brao dela.
  Emma!  ele sussurrou de novo, sacudindo-a um pouco, sem querer assust-la, 
at que os olhos verdes se abriram e olharam para ele sem entender nada por um momento.
  Cesare!  ela disse sonolenta.  Onde... Oh!...  Ela se sentou de repente, 
soltando-se das mos dele.  Voc voltou!
  Sim... estou aqui  ele disse baixinho.  Sinto muito se assustei voc.
  No. . . voc no me assustou  ela respondeu, pretendendo sentir uma raiva 
que tinha desaparecido, agora que o via de novo.
        No? Ento por que est chorando?
  Eu. . . eu no estava chorando. Por Deus! Eu no sou uma criana.  Ia chorar por 
qu?
  No me parece muito velha. . .  ele disse, passando os dedos carinhosamente 
pelo rosto dela, enxugando o resto das lgrimas.
  Oh, pare com isso!  choramingou, afastando as mos de Cesare e abaixando a 
cabea para evitar o olhar dele.
  Emma, me perdoe por ter feito o que fiz. Foi imperdovel, mas muito necessrio.
      Ela olhou para ele, com os olhos faiscando.
  Eu j disse. Esquea isso! Apenas me leve embora. Quero sair daqui 
imediatamente!
      Cesare olhava para ela muito quieto e srio. A toalha laranja tinha escorregado de 
seus ombros, mostrando os seios desenhados pelo maio molhado.
  Emma...  ele tornou a dizer o nome dela carinhosamente e passou a mo por 
baixo de seus cabelos, segurando-lhe a nuca e forando a cabea dela para trs, at ela 
olhar em seus olhos. Depois, caiu de joelhos ao lado dela, roou-lhe os lbios no pescoo e 
depois deitou-a suavemente de costas na areia.
      Emma fechou os olhos. A boca de Cesare abriu a dela em um beijo suave que ficou 
mais forte, intenso e profundo, quando ele comeou a sentir a reao dela. Para Emma, os 
lbios dele eram deliciosamente  quentes e  desejveis.
  Dio!  ele resmungou, sentindo a submisso do corpo dela debaixo do seu. A 
boca de Emma movia-se sensualmente dentro da dele, com prazer, excitando-o.
      Ele tinha desejado apenas confort-la, desfazer a impresso de seu comportamento, 
mas em vez disso a beijava com paixo e a desejava ardentemente.
      Com um esforo sobre-humano, ele a afastou, levantou-se e alisou os cabelos com as 
mos trmulas.
  Pelo amor de Deus, Emma!  ele disse com mais violncia do que pretendia, 
perturbado pelo desejo.  Levante da e pare de agir como uma cortigiana!
      Emma levantou depressa, enrolando a toalha no corpo.
  O que isso quer dizer? No faz parte do nosso vocabulrio.
  Procure no dicionrio, ora. Agora, ande, vista-se e vamos embora! Sua madrasta 
estar imaginando onde diabos voc se meteu! Mes geralmente se preocupam com suas 
"filhinhas queridas" no  mesmo?
        Oh, Cesare! Como pode dizer isso?
      Ele se virou envergonhado. Era insensvel e egosta, sempre pensando em seu 
prprio prazer. Mas  que ela era to deliciosamente doce, inocente e intocada... Teria sido 
to delicioso ensinar a ela a arte do amor! Era vinte anos mais velho, experiente, e... des-
gastado, desiludido, sem direito algum de estragar tanta inocncia.
      O que Emma precisava era de um homem jovem, muito mais jovem, com quem 
pudesse repartir seu ardor e suas experincias. Alm disso ele estava vivendo uma 
existncia perigosa e nenhuma mulher merecia esse tipo de vida; nem mesmo Celeste. Ele 
precisava resolver este caso, antes que Celeste e seus milhes arruinassem tudo.
      Quando Emma j estava vestida, veio at ele, embrulhando seu maio e o dele na 
toalha.
  Estou pronta para ir  ela disse e ele concordou, jogando fora o cigarro.
      Cesare subiu primeiro na lancha, dando a mo a ela para ajud-la. Emma tropeou na 
beirada e quase caiu, mas ele a amparou. Sentiu a rigidez daquele corpo msculo e de novo 
sentiu-se invadida pelo desejo.
        Cesare, por favor!  implorou.
      Ele apertou os dentes e empurrou-a para longe. Desatou a corda que prendia o barco 
e o colocou em movimento.
  Precisamos arranjar um namorado para voc, Emma, com urgncia. Parece que 
est ficando ridiculamente obcecada pela idia de fazer amor. Talvez algum jovem de sua 
idade possa acalmar esse fogo.
      Ficou furiosa, embora sua intuio lhe dissesse que ele no estava falando 
exatamente a verdade.
  Eu posso muito bem escolher meus namorados, obrigada. No preciso de sua 
ajuda. E no creio que eu v embara-lo, signor conde. Nada neste mundo me levar  
falar com voc novamente a menos que isso seja absolutamente necessrio.
  Muito bem, signorina. Isso me convm, e muito. No estou acostumado a lidar 
com adolescentes impulsivas que se atiram em cima de mim.
  Oh!... Eu...  Emma sentiu que as lgrimas brotavam de seus olhos novamente, e 
preferiu descer at a cabine. Ficou l o resto da viagem at o palcio.
      
      Logo depois de tomar os dois comprimidos que Anna prestativamente levou com seu 
caf da manh, Celeste sentiu um alvio to rpido que resolveu levantar.
  Pode preparar meu banho, Anna. Me sinto bastante melhor. Acho que apesar de 
tudo vou acompanhar o conde ao piquenique que combinamos.
  Infelizmente o signor conde j saiu  Anna disse calmamente.
  No compreendo! O senhor conde e eu combinamos um passeio para esta 
manh! Certamente ele no foi sozinho!
      Anna balanou a cabea.
  No, madame! A signorina Emma foi com ele. Eles saram h mais de uma hora!
      Os dedos de Celeste agarraram a coberta, mas ela controlou sua fria.
  Estou entendendo  disse baixinho.  Ento, muito bem, Anna. Pode preparar 
meu banho assim mesmo. No vou ficar aqui deitada o dia inteiro, pois quero ver o mais que 
puder de Veneza.
      Anna levantou suas grossas sobrancelhas escuras.
        Si, si, madame  respondeu, dirigindo-se ao banheiro.
      Isso no fazia parte de seus deveres na casa, mas ela preferiu no contrariar Celeste. 
Encheu a banheira, jogando dentro os sais de banho que Celeste tinha  recomendado.
  Isso  tudo, Anna, obrigada  Celeste falou com calma, sem demonstrar a 
imensa raiva que estava sentindo por Emma ter ido com Cesare passar o dia todo fora. 
Como ela se atrevia a isso, particularmente depois de seu aviso de alguns dias atrs? E por 
que Cesare teria feito isso? Celeste confiava em sua prpria beleza, embora madura, e 
estava certa de que, perto dela, Emma parecia inspida e desengonada.
s vezes, at mesmo Celeste tinha lampejos de bom senso e receava que quando 
ficasse mais velha e Emma atingisse o ponto alto de sua vitalidade e juventude, suas 
posies estariam invertidas. Mas estava decidida que, quando esse tempo chegasse, ela e 
Emma estariam afastadas para sempre.
      Durante a tarde, Celeste descansou e preparou-se para a volta de Cesare e sua 
enteada. Era muito importante que Cesare no suspeitasse que sua ausncia a deixara 
perturbada. Mas Emma ouviria o que ela iria dizer por sua desobedincia.
 tarde chegou um rapaz ao palcio. Celeste estava descansando nas arcadas e 
tinha assumido uma aparncia de relaxamento diante da condessa que estava ao seu lado, 
enquanto seus olhos e ouvidos estavam alertas ao menor rudo.
      O jovem lhe foi apresentado como sendo Antnio Vencare, primo de Cesare e filho da 
filha da condessa, Giuseppina. Ele no era to alto quanto Cesare, mas era muito bonito. 
Celeste calculou sua idade ao redor dos vinte e trs anos, e imaginou que a velha senhora 
tinha pensado secretamente em coloc-lo em cena para fazer companhia a Emma. Afinal, a 
condessa, tanto quanto Celeste, no gostaria que nada atrapalhasse o casamento do conde 
com sua afilhada, e Emma vinha provando ser uma presena um tanto inconveniente
      para ambas.
      Se era assim, e Celeste tinha certeza que era, ento o plano parecia interessante e 
ela o aprovaria de todo corao.
      Assim sendo, cumprimentou efusivamente Antnio, fazendo mil perguntas sobre ele e 
sua carreira.
      Antnio ficou surpreso com uma recepo to efusiva. E, evidentemente, se encantou 
com aquela mulher atraente e elegante em seu vestido verde-gua, que mostrava com 
perfeio o corpo bem-feito.
 Minha me possui navios  ele disse, com um sorriso.   Possui vrios e desde 
que deixei o colgio, aprendo como administr-los.
      Seu ingls no era to bom quanto o de Cesare, mas seu sotaque era gracioso. 
Celeste pensou com satisfao que ele seria bem capaz de encantar a desejeitada Emma.
      A condessa foi organizar o ch da tarde, deixando-os sozinhos por algum tempo, e a 
lancha chegou quase sem ser notada.
      Emma saiu do barco deixando Cesare sozinho e correu para dentro. No sabia que o 
dia ao ar livre tomando sol a tinha deixado linda, realando o brilho de seus olhos verdes na 
pele bronzeada.
  Oh!  ela disse surpresa, tentando recuperar o flego, quando quase esbarrou 
em Celeste e Antnio.
      Os olhos de Celeste estavam gelados, mas seus lbios exibiam um sorriso:
  Ah, j voltou, Emma querida! Veja, temos um visitante. Este  o primo do conde 
Cesare, Antnio Vencare. Antnio, esta  minha enteada, Emma Maxwell.
      Antnio, com segurana e cortesia, tomou galantemente a mo de Emma e a beijou:
  Encantado em conhec-la, signorina. No  sempre que este velho palcio  
enfeitado com a presena de duas criaturas to encantadoras.
  Muito bem dito!  endossou o conde Cesare entrando no salo.
  Buon pomeriggio, Cesare!  disse Antnio, sorrindo um pouco com a ironia de 
seu primo diante da cena.  Espero que tenha passado um bom dia.
      Cesare apenas olhou para Celeste, ignorando o comentrio gozador do primo.
  Ah, cara mia  murmurou.  Est melhor, espero? Celeste aproximou-se dele. 
tomando-lhe o brao possessivamente.
  Muito, muito melhor, querido!  respondeu sorrindo docemente.  Mas senti 
saudades de voc. Estou satisfeita por ter levado Emma. Teria sido aborrecido para ela ficar 
aqui sozinha o dia todo.  Ela olhou para Emma que estava de cabea baixa.  Muito 
embora aqui esteja Antnio e talvez Emma no tivesse ficado sozinha,  afinal.
  Eu teria tido o maior prazer em acompanhar a signorina Emma, aonde quer que 
ela quisesse ir  disse Antnio.
  No seja to precipitado primo!  Cesare interveio.  D  signorina tempo para 
conhec-lo primeiro. Ela  inglesa, e voc sabe, os ingleses precisam de tempo para estudar 
as coisas primeiro. Eles no so. . . como direi. . . impetuosos, como ns italianos.
  Tenho certeza de que Emma ficaria muito grata por sua ateno, no  Emma?  
Celeste entrou na conversa.  Ela  mais moa do que ns, Vidal, e as coisas que so do 
nosso interesse dificilmente interessam a eles.
  Vocs no precisam se  preocupar tanto comigo!    Emma interrompeu com 
raiva.
  No seja assim, Emma. Antnio vai pensar que voc  indelicada.  Celeste 
tentou conciliar.
      Emma nunca tinha se sentido to desastrada e embaraada em toda sua vida e com 
um desanimado movimento de ombros, entrou em seu quarto, deixando Celeste pensando 
em seus planos diablicos, fossem quais fossem. Naquele momento, no parecia ter im-
portncia alguma aquilo que Celeste pudesse fazer ou deixar de fazer. Ela queria ficar 
sozinha, alguns preciosos momentos, para colocar suas idias em ordem. Se  que, a essa 
altura, isso ainda era possvel.
      
      
                                                CAPTULO VIII
      
      
      Antnio ficou para o jantar, que foi bastante informal. E Celeste usou de todo o seu 
charme para monopolizar as conversas. Ela ainda no tinha tido oportunidade de conversar 
a ss com Emma, mas a garota estava convencida de que a hora logo ia chegar. Celeste 
no ia permitir que ela passasse um dia inteiro na companhia de Cesare sem sofrer as 
conseqncias, que seriam, com certeza, extremamente desagradveis. Mas tinha valido a 
pena, apesar do infeliz final da tarde. Pela manh tudo tinha sido delicioso, e eles pareciam 
estar perfeitamente sintonizados um com o outro.
      Emma tomou a deliciosa sopa de peixe que Anna preparou com tanto capricho quase 
sem sentir o gosto. No melhorou sequer ao comer o fil com salada. A confuso em sua 
cabea era tanta que lhe roubava o apetite. Ela estava usando um vestido que Celeste tinha 
comprado, e que a fazia parecer horrvel. Seu cabelo estava preso na nuca por um elstico e 
ela se achou particularmente feia e sem graa.
      Em contraste, Celeste estava linda, viva e excitante, com um belssimo conjunto de 
cala e tnica de seda amassada azul.
      Quando terminaram de comer, a condessa levantou:
 A noite est apenas comeando, Cesare.   Ela sorriu para Celeste,  Como 
esto ambos em trajes de noite, porque no vo at o cassino? O Lido  muito agradvel em 
uma noite linda como esta.
      Celeste se animou mais ainda.
        Ah, sim, Vidal! Podemos ir? Antnio  ficou  desapontado.
  Mas. . . vov! Eu no estou com roupa de noite e no posso ir! Certamente 
Cesare, em vez disso podamos ir danar um pouco.   Antnio  se dirigiu ao conde.
  Podamos...  respondeu Cesare secamente, acendendo um charuto.  Mas  
no tenho a  menor inteno  de fazer isso.
  Antnio, por que no leva Emma?  a condessa sugeriu e Emma ficou irritada.
  Oh, no!  ela comeou a protestar.  Eu... eu... preferia ir outro dia, se ningum 
fizer objeo. . .
      Antnio, que obviamente no estava nem um pouco interessado em sair com uma 
garota to mal vestida e sem graa, deu um suspiro de  alvio, mas a  condessa  insistiu.
  Bobagem, Emma! Voc est em frias. No quero que v dormir cedo. Antnio, 
voc concorda, no  mesmo?
  .. .  murmurou Antnio sem nenhum entusiasmo e o rosto de Emma quase 
pegou fogo, tambm por ter percebido o olhar de Cesare. Depois de um longo momento, ele 
disse asperamente.
  Ento vamos, Celeste. Antnio tem sua prpria lancha. Ns iremos ao cassino.
      Depois que eles saram, Emma comeou a protestar de novo, mas foi intil. A 
condessa sabia ser persistente quando queria e Emma no teve jeito seno concordar.
  Eu... ento eu vou escovar os dentes primeiro  ela disse encabulada e saiu da 
sala.
      Em seu quarto estudou-se no espelho, criticamente. No era  toa que Antnio 
hesitava em sair com ela. Seu vestido cor-de-rosa claro chegava aos joelhos e caia reto pelo 
seu corpo, sem nenhuma elegncia ou graa. Seu cabelo puxado para trs, chamava a 
ateno para sua testa um pouco larga.
      Ela bufou irritada e arrancou o elstico dos cabelos. No ia ficar mais parecendo uma 
bruxa. Se era idia de Celeste fazer sua enteada parecer o mais insignificante possvel, ela 
ia ficar desapontada. Afinal de contas, se conseguisse tirar o conde de sua cabea, Antnio 
Vencare, que era um rapaz muito atraente, podia muito bem ser sua companhia, ajudando a 
apagar todos os sonhos impossveis de sua cabea. Mas ningum podia esperar que 
Antnio se mostrasse interessado por uma deselegante adolescente, quando era evidente 
que as mulheres deviam chover  sua volta.
      Com deciso, ela tirou o vestido cor-de-rosa e abriu a porta de seu enorme armrio. O 
que poderia haver ali que ela pudesse usar? Algo que no fosse muito fora de moda ou 
muito velho?
      Alm dos que Celeste comprou, havia outros dois. Um azul-escuro que, embora 
moderno, era mais um vestido para o dia e um de veludo cor de damasco, que ela j tinha 
usado anos e anos, mas que continuava usando quando ia a alguma festa. Decidiu pelo de 
veludo. Era simples, mas elegante e ficava muito bem nela: tinha um belo decote, redondo 
na frente e em v atrs, mangas trs quartos, e justo, na altura dos quadris. Colocou um 
broche antigo que pertencera  sua me, ao lado do decote e escovou os cabelos deixando-
os soltos e brilhantes.
      Improvisou uma maquilagem leve, sombreando levemente os olhos verdes. Seu rosto 
estava naturalmente colorido pelo sol que tomou durante o dia e dispensava realces. Pelo 
menos agora, ela se sentia mais como a Emma Maxwell que tinha sido antes.
      Saiu do quarto ligeiramente nervosa e ficou satisfeita ao ver a expresso admirada  
de  Antnio.
        Emma. . .   voc. . .
      A condessa ento olhou para ela.
  Ora veja, Emma, voc est muito atraente!  A expresso dela era de espanto, 
assim como a de Antnio, e Emma ento confirmou que realmente deveria  ter estado 
horrvel antes.
  Estou bem?  ela perguntou, saboreando seu  triunfo. Antnio  pegou-a  pela  
mo.
  Voc est encantadora!  disse, sorrindo ternamente.  Agora, onde deseja ir?
      Eles foram a um pequeno clube noturno, um lugar relaxante, onde a msica era 
moderna mas suave e o show excelente: um pistonista e uma cantora faziam um dueto.
      Eles voltaram ao palcio perto de uma e meia da manh, cansados mas contentes e 
Emma no mostrava mais nenhum vestgio da garota infeliz do  jantar.
      Era tarde e Antnio deixou-a ao p da escadaria que subia para os apartamentos.  
Beijou-a gentilmente, antes  de  dizer  arrivederci. Emma subia as escadas devagarinho, 
pensando como seria delicioso cair na cama agora. Seus ps doam de tanto danar e o 
vinho que bebeu lhe dava a sensao de flutuar sobre nuvens. A escada parecia longa e ela 
se segurava no corrimo, sorrindo para si mesma. Ouvindo um rudo leve, olhou para trs, 
mas tudo estava quieto. Emma apressou seus passos, inconscientemente, como se algum 
estivesse l embaixo, olhando para ela. Tropeou, respirando depressa ao subir os degraus 
restantes. Chegando ao topo, empurrou a porta de entrada do salo e encontrou a luz 
acesa, mas ningum l dentro. Fechou a porta e virou a chave na fechadura. Ento apoiou-
se sobre uma cadeira, recuperando o flego. Provavelmente estava sendo estpida, 
sentindo medo  tola, mas depois do dia que tinha passado, seu nervosismo era mais do 
que natural. Seguiu pelo corredor e entrou em seu quarto dando graas a Deus. Olhou ao 
redor, examinando suas coisas, mas tudo estava como ela havia deixado.
      Ento suspirou aliviada.
      Tirou o vestido, lavou rapidamente o rosto e caiu na cama. Ainda ouviu por segundos 
o murmrio das guas do canal que batiam suavemente contra as velhas paredes do palcio 
e logo suas plpebras caram pesadamente. No dormiu muito tempo pois acordou com 
fortes batidas. Abriu os olhos assustada, imaginando o que poderia estar acontecendo. 
Ento se lembrou que tinha trancado a porta de fora e parecia que o conde Cesare e 
Celeste ainda no tinha entrado.
      Saiu rapidamente da cama. vestindo depressa um penhoar e sentiu-se meio ridcula 
correndo pelo amplo salo para destrancar a porta.
      Um certo pressentimento de desastre fez Emma olhar ao redor e seus olhos se 
arregalaram de horror. O conde estava ferido; sangue escorria de seu ombro, e toda frente 
de sua imaculada camisa branca estava ensopada de sangue.
  O que houve?  Emma no hesitou. Sua experincia de enfermagem a fez agir 
imediatamente e ela foi na direo dele, ajudando-o a tirar o palet com o mximo cuidado.
      Mas o conde no queria sua ajuda.
  Chame Giulio  ele ordenou, apertando os dentes quando o movimento fez abrir 
mais o ferimento.  No brinque com coisas que no conhece.
  Mas eu conheo. . .  Emma comeou a dizer, mas Celeste a interrompeu com 
voz cortante.
  Emma, no discuta! Faa o que o conde Cesare manda! Emma apertou os lbios, 
olhando desesperada para a ferida, agora visvel pois o conde tinha aberto a camisa com 
cuidado.
      Correu at a cozinha. Ela sabia que o ferimento precisava levar pontos e que ele 
precisava de assistncia mdica, algum capaz de lidar com aquele tipo de ferimento. Mas 
tudo o que ele pedia era ajuda de Giulio. O que podia Giulio fazer?
      Giulio ajudou seu patro a ir para o quarto e a porta foi firmemente fechada diante das 
trs mulheres, pois Anna tinha se juntado a eles. A velha condessa no tinha acordado, o 
que era timo, naquelas circunstncias.
      Emma acendeu um cigarro, ento olhou para Celeste.
        Como...   quero dizer...   o que aconteceu?
      Celeste arrumou sua echarpe cuidadosamente, tragando profundamente seu cigarro. 
Ela parecia plida e perturbada e Emma pensou que era a primeira vez que via Celeste 
dessa maneira. Ela a tinha visto zangada muitas vezes, mas no assim nervosa e 
apreensiva.
      Celeste balanou a cabea.
  Aconteceu tudo to depressa!  ela disse, como se falasse consigo mesma.  
Ns tnhamos apenas entrado no hall de baixo, quando um homem pulou sobre o conde 
Cesare por trs e o esfaqueou. Eu nem consegui gritar, fiquei petrificada! Eles lutaram, mas 
estava to escuro. .. e o homem estava armado enquanto que Vidal...  Ela estremeceu.  
Foi terrvel!  to sem sentido uma coisa dessas!
  Um ladro!  Anna disse firmemente, cruzando os braos.  No h nada l 
embaixo que um ladro possa  querer.  Emma comentou, lembrando de sua prpria 
sensao de perigo um pouco antes, quando subiu as escadas. Mas se era assim, se ela 
havia inconscientemente sentido a presena de algum, o que o homem ficou fazendo? Se 
fosse simplesmente um ladro, ele teria tido tempo bastante para fazer seu servio at a 
chegada de Cesare e Celeste. Isso no fazia sentido. O homem devia estar esperando pelo 
conde. Mas por qu?
      Sua cabea no tinha encontrado as razes e ela deu um suspiro de desnimo. 
Parecia haver vrias coisas que ela no podia entender, como as inexplicveis ausncias do 
conde nessa tarde e tambm na tarde anterior.
      Celeste virou-se para Emma e seus olhos estavam gelados. Ela jogou  fora  seu  
cigarro,  dizendo:
        Venha, Emma. Quero falar com voc.
      Ela podia adivinhar qual era o assunto. Tinha chegado a hora.
         Mas o conde. . .  ela comeou, olhando para Anna.
  Anna ir nos avisar se houver alguma coisa que possamos fazer  disse Celeste. 
 No  Anna?
  No vai haver nada, madame. Giulio pode tomar conta de tudo.
      Celeste sorriu  para Anna e  acenou,  despedindo-se.
  Boa noite, signorina... madame...  Anna inclinou a cabea e saiu da sala.
      Celeste foi andando depressa para o quarto com evidente mau humor, na certa 
decidida que, to logo se tornasse a condessa Cesare, Anna iria embora.
      Emma a seguiu. Estava muito cansada para enfrentar uma cena com Celeste a essa 
hora da madrugada. Alm de tudo, estava muito preocupada com o conde. Um ferimento 
assim podia infeccionar facilmente se ele no tomasse antibiticos logo. Giulio no tinha os 
conhecimentos necessrios para isso, pensou ansiosa.
      O enorme quarto de Celeste estava uma baguna total: roupas, sapatos e bolsas 
cobriam as cadeiras, armrios estavam com as portas abertas e dentro no havia uma pea 
em ordem.
  Agora ela disse, depois de fechar a porta , sabe sobre o que quero falar com 
voc, no sabe?
        Posso adivinhar.
  No seja impertinente, menina. Apenas lembre-se que tenho meios de fazer com 
que se arrependa de ter me trado.
  Ah, Celeste!  exclamou Emma.  Eu queria tanto sair um pouco e quando o 
conde Cesare me convidou...  Sua voz sumiu.
  A verdade  que no agentava de vontade de ir com ele. No pense que me 
engana, Emma! Eu conheo voc muito bem. Voc  transparente, e est bastante claro que 
imagina estar apaixonada pelo conde Vidal!
  A. .. apaixonada?  repetiu Emma.  Eu? No seja ridcula1
  No sou eu que estou sendo ridcula. Tenho visto muitos casos de adolescentes 
se apaixonando por homens de meia-idade e Vidal ainda est longe disso. Eu no culpo 
voc.  Celeste procurou um cigarro.  Ele foi uma surpresa para mim, tanto quanto foi 
para voc. De fato, chego a pensar que mesmo que ele no fosse conde, assim mesmo me 
casaria com ele. Penso que pela primeira  vez estou  apaixonada.
      Emma virou-se para  sair.
        Bem. . .   isso  tudo?
  No. . diabos, no ! Eu ainda no terminei. Quero que saiba que se tentar fazer 
de novo o que fez hoje, vou achar um meio de humilhar tanto voc, que vai desejar nunca 
ter nascido!
  Oh, Celeste  Emma pediu.  Se voc sente isso por mim, por que no acha um 
jeito de me mandar para casa?
      Celeste sacudiu a cabea.
  No, isso no funciona. No h razo vlida para que eu possa convencer a 
condessa. Ela acredita que no quero me separar de minha querida e doce enteada, mas 
tanto quanto eu, pode ver que voc est indo longe demais. Tenho certeza de que foi por 
isso que providenciou a vinda de Antnio, para desviar sua ateno do conde.
         No pode estar falando srio!
  Estou sim! A condessa pode ser velha mas no est caduca e est sabendo muito 
bem que o conde no consegue resistir a uma mulher, especialmente quando ela se oferece 
a ele livremente. ..bem... ele  homem e  tambm um ser humano.  Ela sorriu com 
maldade.  Pobre Emma, voc no pode estar pensando seriamente que um homem como 
ele se interessaria por voc!
  Voc  desprezvel, Celeste! No posso imaginar o que foi que meu pai viu em 
voc para am-la!
  O que isso importa agora? Ele era um homem solitrio e se uma pessoa  solitria 
est aberta a qualquer coisa. E eu posso ser bastante persuasiva, voc sabe!
        E como sei! Infelizmente!
      Celeste agora se divertia com a situao. Retomava sua autoconfiana e sentia-se 
forte para enfrentar Emma.
  Agora v! No quero ver mais voc. Est comeando a me aborrecer. E se aquela 
criatura, Anna, tentar se aliar a voc, ela vai saber que a fora da minha influncia no deve 
ser ignorada assim.
      Emma saiu, sentindo-se  enojada. Suas emoes  seriam to evidentes assim? 
Celeste teria adivinhado alguma coisa atravs de suas reaes, que ela mesma ainda  
relutava em admitir?  Sofria ao se imaginar encarando o conde depois dessa conversa e. ..  
principalmente depois das palavras odiosas que ele tinha lhe dito na lancha. A vida tinha se 
tornado de repente muito complicada para Emma, e ela desejava de todo corao nunca ter 
concordado em vir para a Itlia com Celeste. Ela devia saber que Celeste no podia mudar 
do dia para a noite. Fora ingnua demais e o preo que pagava por essa ingenuidade j 
estava pesando demais!
      Ela se jogou na cama, pensando no que estaria acontecendo a Cesare; se Giulio 
estaria com ele ou se tinham chamado um mdico. Isso parecia pouco provvel, pois seu 
sexto sentido lhe dizia que havia razes para o incidente ser abafado.
      Tudo era muito estranho, mas tivera um dia cansativo e caiu no sono quase 
imediatamente. Um sono profundo e sem sonhos, do qual no acordou antes do meio-dia.
      
      
                                                  CAPTULO  IX
      
      
      Emma no viu o conde no dia seguinte. Permaneceu em seus aposentos at a hora 
do jantar. Celeste e Cesare saram enquanto estava se vestindo e a condessa disse que 
eles tinham ido jantar com amigos, mas no se referiu nem uma vez ao ferimento. Emma 
tambm no fez perguntas e assim jantaram praticamente em silncio. Depois, a condessa 
disse que tinha algumas cartas para escrever e desculpando-se, retirou-se.
      Na manh seguinte, Emma foi fazer compras com Anna. A velha empregada gostou 
da companhia da jovem, que a ajudou a carregar os pacotes e cestas de compras. Emma 
comprou mais dois vestidos a seu gosto, caso sasse novamente com Antnio Vencare, 
embora se sentisse to desanimada que preferia que o jovem italiano no a procurasse de 
novo. Gostaria de passear por onde quisesse durante o dia e ficar em casa  noite. Estava 
decidida a no impor sua presena a Celeste ou ao conde novamente. Logo Celeste 
conseguiria se casar com Cesare e ela teria permisso para voltar  Inglaterra e  sua vida 
tranqila no hospital.
      Pouco antes da hora do almoo, ela entrou no salo e deu com o conde no pequeno 
bar, servindo-se de usque.
      Emma ia voltar imediatamente, mas ele disse:
 Bem, Emma! Ficou perturbada pelo fato de eu estar bebendo a esta hora do dia?
      Ela olhou para ele e  notou que estava plido, apesar do bronzeado, e que segurava 
seu brao esquerdo rigidamente. Como sempre, no entanto, estava irresistivelmente 
atraente e Emma sentiu o rosto queimar ao se lembrar do ltimo encontro que tiveram. Ela 
sabia que no era s a beleza de Cesare que a atraa, mas sim a vibrante sensualidade 
magntica que emanava dele, envolvendo-a e fazendo-a desejar aquelas mos fortes e 
morenas correndo sobre seu corpo.
      Apesar de tudo, disse apenas:
  O que voc faz no  da minha conta.  Ela procurou um cigarro.
      Ele lhe estendeu um mao e ela tirou um, nervosa, com a me trmula pela 
proximidade, permitindo que ele o acendesse. Ento, soltando uma baforada, foi at a porta 
que dava para as arcadas.
      Estava um dia maravilhoso e uma leve brisa balanava as lonas das pequenas 
embarcaes que passavam pelo canal.
      Sentia fortemente a presena dele, que tanto a perturbava. Logo ele se aproximou, 
ficou bem atrs dela, olhando para o vazio.
  Creio que devo me desculpar pelo meu comportamento daquela tarde  ele 
murmurou suavemente.
  Isso no  necessrio  respondeu, fria.  J... eu j esqueci tudo isso. No foi a 
primeira vez que algum tomou liberdades comigo.
  Talvez no. . . mas eu no gosto da atitude infantil que voc adota quando est 
em minha companhia. Voc age o tempo todo como se eu estivesse prestes a saltar sobre 
voc.
  Est imaginando coisas, conde Cesare. Apenas sinto que minha presena aqui  
claramente indesejvel e eu gostaria que houvesse um jeito qualquer de livr-lo de mim.
  Voc est certa  disse finalmente.  Eu tambm gostaria que houvesse um 
modo de voc deixar o palcio, mas no pelas razes que est imaginando.
      Emma empalideceu.
        Sinto no poder agradecer-lhe por isso. 
      O conde estudava pensativo a ponta acesa do charuto.
   em seu bem estar que estou pensando  disse com voz grave, mas suave.
        Oh, realmente...!
        Sim, realmente, Emma, acredite em mim.
  No, obrigada.  Ela o interrompeu, virando as costas para ele.  Em todo caso, 
voc est esquecendo nosso trato; combinamos no trocar uma palavra alm dos 
indispensveis cumprimentos que a boa educao exige.
      Os olhos dele escureceram, demonstrando seu desapontamento. Deu um passo na 
direo dela, segurou-a pelos ombros e obrigou-a a se virar para ele. O esforo com o brao 
ferido o fez gemer de dor. Ento Cesare a soltou depressa, pressionando o brao, com o 
punho fechado.
        Cesare!  Esse brao devia estar em uma tipia, apoiado.
  O que voc entende disso?  disse com os dentes apertados.
  Muito mais do que voc pensa. Levou pontos? Tomou antibiticos?
  Ora, no venha praticar seu treinamento de primeiros-socorros comigo!  ele 
resmungou, enxugando a testa com as costas da mo.
  No  apenas um treinamento desse tipo  ela respondeu zangada.  Eu. . .
  Emma!  A voz de Celeste interrompeu-a.  O que pensa que est fazendo?
 Fazendo?  Emma virou-se para ela.  No estou fazendo nada. O conde sente 
dores,  s!
      Celeste ignorou-a e aproximou-se de Cesare.
        Querido! O que houve? Emma machucou seu brao?
  No!  ele respondeu rudemente.  Ela no fez nada. Absolutamente nada!
      Ento Emma saiu dali. No agentava ver o conde com dores, nem suportava ver 
Celeste fazendo o papel de um anjo celestial como ironicamente seu nome sugeria. Isso era 
to. . . to horrivelmente artificial.
      
      Muitos dias se passaram sem que Emma visse muito sua madrasta ou o conde 
Cesare. E quando o via, tomava cuidado para que no ficassem juntos.
      Antnio apareceu novamente e fez reservas para levar Emma a uma apresentao da 
pera "Pagliacci" no teatro Fenice. Eles gostaram muito, e Emma ficou agradavelmente 
surpreendida, porque at ento, nunca se sentira muito atrada por este gnero de msica. 
Mas os cenrios e figurinos, combinados com as vozes harmoniosas dos cantores a 
encantaram.
      Antnio parecia gostar de sua companhia e em outra ocasio levou-a para conhecer a 
me dele, o pai e as trs irms. Embora ela tivesse achado a tia do conde bastante 
agradvel, queria evitar esse
      tipo de aproximao.
      Os dias passavam e, para desapontamento da condessa, as relaes entre Cesare e 
Celeste pareciam no se estreitar. Apesar de se tratar de um casamento de convenincia, 
ainda assim, devia haver sinais de progresso.
      Em seus momentos de solido Emma sofria pensando tanto em Cesare quanto em 
voltar  Inglaterra. As paredes brancas do hospital pareciam agora uma lembrana muito 
distante e o charme de Veneza e daquele velho palcio estavam comeando a contagi-la 
com seu encanto.
      Cerca de dez dias depois do acidente de Cesare, Emma estava saindo para fazer 
compras a pedido de Anna, em uma manh bem cedinho, quando encontrou o conde saindo 
da pequena ante-sala que tanto a tinha intrigado no primeiro dia.
        Buon giorno signorina  ele cumprimentou.  Come sta?
  Bene, grazie  ela respondeu em italiano, secamente, e teria passado direto se 
ele no tivesse parado diante dela.
        Bene  ele disse.  Agora, onde est indo?
        No  absolutamente da sua conta. 
      O conde pareceu aborrecido.
  Como se atreve a falar comigo dessa maneira?  exclamou, srio.  Repito: 
Onde est indo?
  Apenas fazer compras para Anna. Giulio est esperando por mim na lancha. 
Posso ir agora, signor conde?
      Ele ficou de lado para que ela passasse.
  Espere! Eu tambm tenho negcios na cidade. Vou levar voc.
  Bem. . . .se insiste. . .   concordou, mal-humorada. Passou rpida por ele, 
abrindo ela mesma a porta da frente, e sem querer, esbarrou no brao dele. Percebeu que 
Cesare sentiu muita dor, apesar de ser evidente que tentava se controlar.
        Oh, Deus!  Machuquei voc!
      Ele apenas sacudiu a cabea mas no disse nada, indo para junto dela at o 
ancoradouro. Em alguns momentos j estava refeito, lidando com os controles do barco.
        Entre  ele disse.
      Emma sentia-se culpada pela sua imprudncia. E preocupada. Por que Cesare no 
procurava um mdico? E por que ele no tinha avisado a polcia sobre o ataque? Celeste 
tambm no tocava no assunto, o que no era nada comum. Talvez o conde a tivesse ta-
peado com alguma histria qualquer. Em todo caso, tudo isso era perturbador e intrigante.
  Sobre o que est pensando?  ele perguntou, quando entravam no Grande 
Canal.
  Em voc, se quer saber a verdade. Seu brao ainda no est curado 
completamente, est?
        Isso  assunto meu.
  No, no . Est se comportando como uma criana. No sabe que pode ter uma 
gangrena? Voc pode perder o brao!
        Coisa  pouco  provvel.
        Pode acontecer!  J vi casos assim!
   J mesmo? Onde? Ah, posso adivinhar. Voc deve ser uma daquelas damas da 
sociedade que visitam os hospitais para impressionar os doentes, e que para exibirem algum 
conhecimento fazem diagnstico de tudo, desde dor de dentes at gravidez!
        Voc  simplesmente insuportvel.
      Ela havia falado demais, pensou, e se Celeste soubesse disso iria ficar furiosa.
  Onde vai fazer as compras?  ele perguntou, mudando de assunto.
        Onde voc est indo?
  Como voc gosta tanto de dizer, isso  da minha conta. Emma corou, explicando:
  No quis dizer isso, Quis dizer que pode me largar onde for mais fcil para voc.
  Tudo bem. Vamos deixar a lancha perto do Rialto. Pode me encontrar ali mesmo, 
vamos dizer. . .  ele olhou o relgio  daqui a duas horas.
  Muito bem  concordou, e dali em diante no conversaram mais.
      Era muito excitante fazer compras sozinhas. Quando Giulio a trazia, geralmente a 
acompanhava para carregar os pacotes. Naquele dia, ela sentia-se independente e livre. 
Escolheu os peixes e os vegetais que Anna havia pedido que ela comprasse no mercado. 
Depois, como tinha bastante tempo, ficou andando sem destino, olhando as vitrines e 
pensando nos presentes que levaria para as enfermeiras do hospital, quando voltasse.
      Perto da hora combinada para a volta, comeou a se dirigir ao lugar onde o conde 
tinha deixado a lancha. Para chegar at l, entrou por uma estreita passagem, uma via que 
levava at a gua, encontrando apenas uma entrada privativa no final. J procurava outro 
acesso, quando viu dois homens, ambos bem morenos, provavelmente italianos e mal-
encarados, avanando ameaadoramente na
      direo dela.
      Deu alguns passos para trs, sem entender o que estava acontecendo. Aquilo no 
podia estar acontecendo com ela! No em pleno corao de Veneza. Se eles esperavam 
que ela fosse uma turista rica, iam ter uma surpresa desagradvel. Tinha gastado todo o di-
nheiro que Anna tinha  dado, restando apenas umas poucas liras em sua bolsa.
      Suas costas bateram na parede do depsito que bloqueava sua escapada, e ela 
olhou alm dos homens inutilmente, apenas para ver a curva da estreita passagem, 
escondida da vista da rua.
      Um dos homens disse alguma coisa em italiano ao seu parceiro e o outro sorriu  
baixinho. Quem seriam esses  homens? E o que queriam com ela.
      O homem falou em italiano com ela.
        Non capisco  Emma disse devagar.  No entendo.
        Ah, inglese!  disse o homem, chegando mais perto dela.
  A signorina Maxwell, si? Emma concordou, confusa. Estava tonta de medo e 
percebeu que mesmo que houvesse uma oportunidade de escapar, no iria conseguir, pois 
suas pernas no a levariam a parte alguma.
  Bene, bene. ..  O homem sorriu, revelando dentes estragados.
  O que querem? Quem so vocs? No tenho dinheiro  ela disse, desesperada.
  Temos uma mensagem para o signor conde  um deles falou, colocando seu 
rosto bem perto do de Emma, enquanto seu companheiro se encostava contra a parede, os 
braos cruzados, apenas observando a cena.
        Uma...   uma mensagem?
  Si. . . uma mensagem. . .  O homem tirou do bolso um objeto que com um clique 
se abriu em uma faca de lmina longa, que reluziu ao sol. Sorriu para Emma como se fosse 
lhe dar um presente muito desejado, e ento encostou a lmina contra o rosto dela.
      Emma sentiu o frio da lmina e pensou que fosse desmaiar. Seus joelhos fraquejaram 
e todo o esforo para gritar ou falar parecia ter desaparecido.
  Si, um recado  ele repetiu.  Um a que ele possa dar mais ateno do que tem 
dado at agora.
        Vocs. . .   vocs vo me mat. . .  matar? 
      O sorriso do homem se abriu.
  Quem meteu isso na sua cabea?  O estranho caoou, e olhou para a faca.  
Ah, capisco a faca!  Isso perturba voc, signorina? Mil desculpas.
      Ele deu um passo para trs e a faca caiu no cho ao seu lado quando ele abaixou o 
brao. Emma suspirou aliviada.
  Qual. . .   Qual  a mensagem?  perguntou tentando se recuperar. Sua nica 
chance era manter a calma.
      O outro homem disse alguma coisa para seu companheiro, e os olhos dele correram 
por Emma de cima a baixo. Ela gelou, imaginando perfeitamente o que estava sendo 
proposto. Mas parece que o homem da faca discordou, porque balanou a cabea 
gesticulando violentamente, e comeou a despejar uma torrente de palavras que Emma 
tentou  inutilmente entender.  Eles falavam em um dialeto,
      napolitano talvez, e muito rpido. Conseguiu apenas entender abbiame fretta...   non 
ho tempo...   o que, ela sabia, significava que
      tinham pressa.
 Agora, signorina  disse o homem , estou acreditando que no sabe por que 
est aqui, mas minha mensagem ao conde vai fazer com que ele entenda muito nem...
      Chegando mais perto, ele agarrou um punhado de cabelos dela, forando-lhe a 
cabea para trs. Ento, devagarinho, desabotoou os primeiros botes da blusa, revelando 
um ombro nu, e com delicada preciso cortou-o com sua faca afiada. Vrios cortes, em 
vrias direes. Com um grito de dor, Emma viu tudo escurecer e desmaiou.
      Quando voltou a si, estava tonta e enjoada. Por um momento ficou deitada nas 
pedras da viela, no entendendo onde se encontrava, ou por que se sentia to mal. Ento foi 
recuperando a memria. Com dedos trmulos, puxou o decote do suter para baixo do feri-
mento e tentou olhar seu ombro, o melhor que conseguiu.
      O sangue estava secando agora, e no havia perigo de perder mais. Contudo, at 
onde podia ver, o homem parecia ter feito suas
      iniciais na sua pele.
      Pegou um leno na bolsa, limpou o sangue da mo e colocou-o sobre o ferimento, 
como um tampo. Felizmente, o suter era cor de laranja, e o sangue no sobressaa 
demais. No podia aparecer na rua principal daquele jeito, pois certamente chamaria a 
ateno e a polcia seria chamada. A ento era bem possvel que o outro incidente viesse  
tona e ela no podia permitir que isso acontecesse. Se o conde no desejava revelar o que 
aconteceu na outra noite,
      ela no podia tra-lo.
      Passou a mo pelos cabelos colocando-os em ordem e apanhou do cho seu saco de 
compras. Colocou-o no brao, levantando-o bem alto para esconder a mancha de sangue na 
blusa, e foi andando devagarinho para a rua. Seu ombro latejava e doa, mas era possvel 
agir com naturalidade se ela se esforasse.
      Avistou o conde que andava para cima e para baixo no cais, impacientemente, 
esperando por ela. Veio ao seu encontro quando a viu aparecer na esquina. Ao se 
aproximar, puxou o punho da camisa e mostrou a ela o relgio no pulso.
  Dio!  disse zangado.  Onde se meteu? Estou esperando h uma hora!
  Uma hora?  ela perguntou como num eco. Teria passado tanto tempo?  Sinto 
muito. Aconteceu algo que me atrasou.  Ela balanou um pouco o corpo e o conde logo 
segurou seu brao.
        O que foi? Me d esse pacote.
      Foi ento que ele notou a mancha escura em seu suter.
        Mamma mia! Est ferida! Emma, me diga, o que aconteceu?
  Po. . . podemos entrar no barco primeiro?  disse com voz fraca e ele concordou 
depressa.
         claro. Entre, venha!
      Ele jogou o saco de compras num banco, pagou o menino que havia tomado conta da 
lancha e ajudou Emma a entrar. Desamarrou a corda e deu partida ao motor, pulando para o 
lado dela.
      Emma caiu sentada no ba  nco de madeira, que tomava a parte traseira e tentou 
reunir suas foras. Seu nervosismo tinha passado; agora ela estava novamente com Cesare. 
Ele lhe dava confiana e por um momento ela relaxou completamente. Aceitou um cigarro 
que ele lhe deu, e suspirou aliviada.
  Agora  ele disse, controlando o barco e conservando os olhos na passagem, 
bastante movimentada quela hora , me conte o que aconteceu.
      Emma contou o melhor que conseguiu. Agora, tudo parecia bastante fantstico e 
apenas a dor em seu ombro a lembrava que no tinha sonhado. Quando terminou, ela disse:
  E afinal no houve mensagem alguma. Cesare sacudiu a cabea.
  Houve sim uma mensagem, signorina  ele disse muito srio.  Ou devo dizer... 
um aviso. Eles sabiam que eu iria entender, Emma.
      Ela jogou a ponta do cigarro na gua escura. Era tudo incompreensvel para ela. 
Algum tinha raiva do conde Cesare e seu envolvimento tinha sido inteiramente casual. 
Emma tinha a impresso de que, se Celeste estivesse com Cesare, teria sido ela a vtima.
  No acha que  tempo de me contar por que todas essas coisas esto 
acontecendo?  ela perguntou, sentindo-se mais forte.
  No. Nunca ser tempo. Quanto menos souber, melhor. Se esses homens 
tivessem pensado que voc estava de algum modo envolvida neste  caso, agora estaria 
morta!
        Deve estar brincando! 
  Mas voc no est rindo, Emma. Isto no  uma brincadeira. E, por favor, s 
porque voc foi testemunha de vrias circunstncias, todas completamente isoladas, no 
tente analis-las nem junt-las. Ponha tudo isso para fora de sua cabea, por favor. Isso 
tudo logo estar terminado, eu espero.
      Emma sacudiu a cabea.
  Pelo amor de Deus! Como posso explicar isto. . .  ela indicava o ombro  para 
Celeste?
        Ela tem necessariamente que ver?
        Mas o ferimento precisa de cuidados.
  Isso voc vai ter, imediatamente. Deve ter notado que no estou indo para o 
palcio. Tenho um amigo...  sua voz se perdeu quando ele passou por baixo de uma ponte 
que cruzava o canal estreito por onde navegavam.
      Eles pararam ao lado de um ancoradouro diante de um armazm. Emma viu-se em 
um ptio de pedras, do qual saam vrios peque, nos caminhos e vielas. Ela seguia Cesare 
por uma dessas vielas, onde havia uma casa, de frente para uma rua estreita. No era uma 
zona muito agradvel, mas quando o conde abriu a porta da casa para que ela entrasse, viu-
se em um hall acarpetado, com um candelabro de cristal suspenso sobre uma arcada de 
madeira polida. Uma escada levava para as salas do primeiro andar e um letreiro numa das 
portas indicava:  "Dottore Luciano Domenico."
      Cesare entrou sem cerimnia em um salo de espera, completamente vazio. 
Atravessaram o salo e bateram na porta da sala seguinte.
      Imediatamente uma voz mandou que entrassem e ele fez um sinal para que Emma o 
seguisse.
      Luciano Domenico era um homem um pouco mais velho do que Cesare. No to alto, 
mas de corpo mais forte. Sorriu e Emma simpatizou imediatamente com o mdico.
  Ah, Cesare!  ele disse saudando-o, e levantou-se de uma grande mesa e veio 
apertar a mo dele.  Come sta?
      Cesare falou em italiano, explicando tudo.
  Ento, signorina  disse em ingls.  Feriu seu brao? Emma olhou para 
Cesare. Ele fez um breve sinal para ela e disse:
  No tenha receio, Emma. O doutor  meu amigo. Ele no vai fazer perguntas que 
no pode responder, posso garantir.
      Emma respirou mais aliviada, ento disse.
        Quer examinar meu ombro?
   claro.  O mdico olhou para Cesare.  Talvez voc deva esperar l fora, meu 
amigo.  E deu um leve sorriso.
      O doutor ajudou-a a tirar o suter e toda a extenso do ferimento podia ser vista 
agora. Felizmente nenhum dos cortes era muito profundo, embora o mdico dissesse que 
ela iria ficar com algumas cicatrizes.
  Vou fazer o melhor que posso para evitar marcas profundas,  claro  ele disse, 
acrescentando um medicamento ao algodo esterilizado.
      Enquanto era tratada, Emma apertou os dentes e agarrou o brao da cadeira com 
fora para suportar a dor. O mdico deve ter-lhe aplicado algum anestsico no local pois 
minutos depois sentiu adormecer o brao e conseguiu relaxar um pouco. Quando ele limpou 
e secou o sangue ao redor, os cortes ficaram bem visveis, e Emma notou uma expresso 
de surpresa no rosto dele.
        O que est errado?
  Um momento, signorina  ele disse, e abrindo a porta, chamou:  Cesare, 
entrate, per favore.       
      Emma arregalou os olhos quando o conde entrou e depressa apanhou o suter, 
segurando-o contra o peito,
  Calma!  Cesare murmurou, meio irritado quando passou por ela. O doutor 
estava apontando o ombro dela e juntos examinaram os cortes.
        O que houve? Acho que tenho o direito de saber.
  No  nada  disse Cesare, apertando os olhos enquanto estudava os cortes que 
o homem tinha feito na pele macia do ombro dela.  Mas fique descansada, Emma. O 
homem que fez isso vai ter o castigo que merece. Eu, pessoalmente, vou cuidar disto.  
Sua voz era spera.
  Oh, por favor!  Emma segurou a mo dele.  No corra nenhum risco por 
minha causa. No estou gravemente ferida. Fiquei mais assustada do que outra coisa e 
estou grata por estar viva.
 No se preocupe, cara. No vou correr riscos. O que aconteceu na outra noite foi 
um descuido da minha parte.
      Emma olhou ansiosa para o mdico, mas o conde sorriu simplesmente.
  Voc realmente no pensou que foi Giulio que tratou do meu brao, no?
         claro que pensei, no devia?
        Eu devia ter tranqilizado voc.
        Mas seu brao ainda di.
  O seu tambm iria doer se tivesse levado vinte pontos  respondeu o mdico.  
No tem um aspecto nada bonito.
  Isso eu posso crer.  Emma estremeceu.  Cesare, por que no me disse?
      Ele balanou os ombros largos.
   que ns no estvamos nos falando, lembra-se? Emma sorriu. Isso parecia to 
ridculo agora, depois da intimidade das ltimas horas.
      Depois que o brao de Emma foi medicado e enfaixado, foram embora. Enquanto  
andavam de volta at o   ancoradouro, Emma puxou a manga de Cesare.
  O que foi que o doutor viu...  em meu brao?  ela perguntou.  Por favor!                                             
      O conde hesitou por um momento, e ento disse com voz suave.
  No adianta guardar segredo. Vai ficar muito evidente quando estiver cicatrizado e 
voc retirar a bandagem. Voc vai ver mesmo! H um nmero em seu brao, cara, isso  
tudo. Um nmero.
      Emma arregalou os olhos.
  Um nmero! Mas por qu? No compreendo. Por que cortar um nmero em meu 
brao?
  Voc ia tentar compreender, se eu dissesse que  melhor que no saiba nada?
      Emma apertou os lbios por um momento. A anestesia estava passando e uma dor 
atordoante tomava conta de seu brao. Estava nervosa, perturbada, e ainda um pouco 
assustada. O que tudo aquilo significava? Como ele podia esperar que aceitasse tudo o que 
tinha acontecido, sem mostrar nenhuma curiosidade? Se havia algum perigo a ser 
enfrentado, deveria ser avisada. Deveria!
      
      
                                                 CAPTULO X
      
      
      Voltaram em silncio. Emma estava confusa demais para falar, enquanto o conde 
parecia mergulhado dentro de seus prprios pensamentos, que, por sua expresso sombria, 
no deviam ser agradveis. Era cedo quando saram e agora j era o meio da tarde. Emma 
temia a cena que Celeste certamente iria fazer. E seria difcil chegar at seu quarto sem 
encontrar com ela ou com a condessa. Contudo, quando chegavam perto do palcio, Cesare 
virou a lancha para um canal muito estreito, ladeado por altas paredes de pedra, com 
janelas gradeadas logo acima da linha d'gua. Era um lugar escuro e bastante misterioso.
      Eles se aproximaram de um arco baixo que dava passagem apenas para o barco, 
ento tiveram que se abaixar, at chegar a uma espcie de caverna escura, cheia de caixas 
e engradados, cheirando a mofo.
      - Onde ns estamos?  ela perguntou curiosa.   o poro do palcio?
      Cesare apenas balanou a cabea.
 Parte dele.  Uma sada que meus antepassados usavam para escapar, em caso de 
perigo.
      Saram do barco e subiram uma escada de madeira que rangia a cada passo, at 
uma porta que se abria para dentro de uma larga cmara.                                               
      L havia uma enorme pia, barris e uma longa mesa de madeira, agora desfazendo-se 
pelo tempo.
      Cesare carregava o pacote de compras, mas mesmo assim, ela logo se sentiu 
cansada e ele teve que parar para esperar que Emma se recuperasse um pouco.
      Saram da cmara por outra porta, que levava a outra escada estreita. Quando 
atingiram o topo, Cesare abriu a porta dupla que dava para a longa galeria dos quartos e 
disse:
  Bem. . . estamos quase l. Vamos entrar pela cozinha. H uma passagem que 
leva at seu quarto. No ter dificuldade de entrar sem ser notada.
  Obrigada  disse Emma.  Anna queria esses vegetais para o almoo. Deve ter 
ficado muito tempo esperando por eles. Provavelmente teve que se arranjar com outra coisa. 
O que a condessa vai dizer?
  A condessa no precisa saber  ele respondeu baixinho.  Pode deixar as 
coisas com Anna, quando passarmos. Eu falo com ela depois.
      Anna ficou surpresa quando  eles entraram pela cozinha,  mas logo avisou:
  A signora Vaughan esteve perguntando por voc. Eu disse que tinha ido fazer 
umas compras para mim, mas. . . acho que ela no acreditou no que eu disse.
  Oh, Deus!  Suspirou.  Bem, se ela perguntar agora, pode dizer que estou 
trocando de roupa.
        Si, signorina.
      Quando Emma se dirigiu para seu quarto, os olhos do conde estavam to enigmticos 
que ela desejou saber o que ele estaria pensando. A ligao deles tinha se tornado ntima e, 
de alguma maneira,  estranhamente  distante.
      No sabia na realidade a impresso real que tinha dela. s vezes, a tratava como 
uma criana teimosa; outras vezes, parecia desej-la como mulher, despertando nela as 
violentas emoes que at ento desconhecia.
      O destino parecia decidido a jog-los um para o outro, interligando suas vidas, fossem 
quais fossem as conseqncias.
      Enquanto isso, Celeste os vigiava, como um esprito maligno que detinha todas as 
cartas daquele jogo, capaz de jog-las com crueldade para acabar vencendo. E mesmo que 
numa hiptese remota o conde gostasse dela, Celeste iria se tornar a prxima condessa 
Cesare que, com seus recursos, faria o palcio recuperar toda a sua antiga majestade.
      Emma tomou um banho e vestiu-se pensando se seria capaz de casar com um 
homem s pelo seu dinheiro. O que valia tal sacrifcio? As posses seriam mais importantes 
do que as pessoas? Qualquer meio justificaria os fins? Esta era uma pergunta que ela se 
fazia nesses ltimos dias, e sempre sua resposta era a mesma: no! Para Emma, um lar, 
uma famlia, comida e umas economias para algum divertimento constituam a felicidade da 
vida. Era uma romntica e seus amigos sempre a criticavam por isso.
      
      A sala de Marco Cortina, que ele chamava de escritrio, estava situada no corao do 
apinhado Fondaco dei Tedeschi. Mas apesar disso, com as paredes  prova de som dois 
andares acima da rua, as pessoas poderiam sentir-se l dentro to isoladas como se esti-
vessem numa ilha deserta.
      Aquele local tinha sido escolhido a dedo,  claro. Ningum esperaria encontrar num 
lugar to central uma rede de comunicaes e de arquivos, guardados em um cofre 
segurssimo, bem como um dedicado grupo de homens e mulheres, cujas vidas tinham sido 
arruinadas pela sua ligao com a organizao. Sempre que Cesare visitava os "escritrios" 
sentia a satisfao ntima de que ele, pelo menos, os ajudava de um certo modo.
      Tinham se passado dois dias desde o ataque a Emma, mas ele no tinha feito contato 
com Cortina at agora. Havia olhos demais vigiando-o e ouvidos nos lugares mais 
inesperados. Por isso ele estava usando Celeste como um tipo de cobertura, Ele tinha ido 
com ela e Giulio at o centro, na lancha, e deixado o barco perto do Rialto. E para ter a 
chance de resolver os problemas sozinho, pediu a Giulio que levasse Celeste at a Casa do 
Ouro, que ela queria ir visitar. Quando inesperadamente comunicou que precisava ir sozinho 
at o Rialto, ela protestou violentamente, mas ele foi assim mesmo.
      Marco o recebeu efusivamente em seu escritrio, que Cesare conhecia to bem. 
Havia mapas nas paredes e quadros indicando a posio de outros escritrios da 
companhia, arquivos abertos para consultas que qualquer visitante quisesse fazer; de fato, 
tudo indicava que ali funcionava uma respeitvel companhia de seguros, em nada revelando 
sua verdadeira identidade.
  Sente-se, amigo.  Convidou o homem enorme, indicando uma poltrona baixa e 
servindo dois drinques, entregando um a Cesare.  Algum problema?
  Receio que sim  disse Cesare, saboreando o conhaque.  Humm. .. isto  bom!
      Ele aceitou tambm um charuto e disse:
  A jovem que est hospedada no palcio, Emma Maxwell, foi atacada h dois dias 
em uma viela perto do Rialto. Eram dois homens, cuja descrio  comum, mas posso 
adivinhar que se trata de Ravelli e Moreno. Eles no a feriram seriamente, embora seu 
ombro esteja muito cortado.
      Cortina apertou os dentes no charuto.
        Porcos!  ele murmurou baixo.  Porcos degenerados!
  A coisa mais importante ainda est por vir  comentou Cesare.  Eles 
escreveram  faca um nmero em seu ombro: um, cinco, sete..
  Um, cinco, sete.  Cortina batia com o p no cho.  Mas esse  o nmero. . .  
Deus! Como eles podiam saber?
  Ora, Marco, ns sabemos j h algum tempo que eles me procuravam. Nada foi 
dito, mas eu sinto isso! Desde que a ltima encomenda desapareceu com Paulo Ferenze, 
meus dias esto contados. Eles no so tolos, meu amigo. Procuram o mais prximo e mais 
provvel suspeito. Eu!
        Mas ainda no sabemos o paradeiro de Hassan Ben Mouhli!
  exclamou Cortina zangado.  Se eu pudesse pr minhas mos nele...   sua 
misso estaria completa.
  Minha av simplesmente amarrou minhas mos; me  tornou vulnervel.  uma 
situao difcil e que eu gostaria de mudar, mas no posso. Como pensar em casamento 
agora, com esse caso ainda pendente e se tornando cada vez mais perigoso!
  Acalme-se, Cesare!  disse Cortina, sacudindo a cabea.  Precisamos pensar 
com cuidado! Como voc mesmo diz, as coisas esto fervendo e  possvel que nosso 
amigo Ben Mouhli mostre sua cara logo, logo.
  Penso que isso  muito pouco provvel. Afinal de contas ele sabe que ns o 
procuramos.
  Mas ele no sabe, meu amigo!  Cortina inclinou-se para a frente.  Cesare, 
com sua reputao, a polcia  o ltimo amigo que eles vo pensar que voc tem. No, 
ainda sou de opinio que eles imaginam que voc tentou dispor do carregamento, voc 
sabe. No percebe que tudo indica isso? A coisa nunca foi recuperada e eles ainda no 
foram detidos ou vigiados. Eles sabem que voc pode mandar prend-los, se quiser. No, 
Cesare meu amigo, eles esto esperando que voc faa o primeiro movimento. para dispor 
desse carregamento. Estou convencido que Ben Mouhli no suspeita que ns sabemos que 
ele est envolvido nisso tudo. E outra coisa: se ele pensa que voc est tentando ir em 
frente sozinho, vai achar voc, sem dvida alguma.
      Cesare levantou-se de repente.
  No percebe, Marco, que isso  a ltima coisa que eu quero neste momento? 
Tenho que pensar em Emma e Celeste. Se eles feriram Emma uma vez, podem faz-lo de 
novo e tudo indica que no vai ser um ataque sem conseqncias maiores numa segunda 
vez. Eles esto apenas me avisando, Marco. Eles querem esse carregamento, ou ento. . .
      Marco levantou-se tambm e comeou a andar impaciente pela sala.
  No pode tirar essas mulheres do seu caminho? Homem, todos os nossos planos 
no podem ir gua abaixo por causa de duas mulheres para quem voc est pouco ligando. 
Livre-se delas! Prometa casar com Celeste, se for necessrio, mas tire as duas do palcio!
  Isso  mais fcil dizer do que fazer. Minha av as convidou e no pode 
simplesmente pedir a elas para irem embora! E qual  a razo que eu posso alegar? 
Somente a verdade...
  E isso,  claro, est completamente fora de cogitao. No podia ter impedido que 
viessem? Em primeiro lugar, por que concordou com isso?
  Voc sabe muito bem que minha av s me avisou quando as duas j estavam 
em Veneza, no Danieli. Tarde demais para que eu pudesse interferir.
      Marco voltou  sua mesa e encarou Cesare, com as mos apoiadas no tampo.
 Cesare  ele disse , se elas no podem ir embora, ento tm que correr o risco! 
O que significa isso para voc? Uma mulher a mais ou a menos! Este negcio  quente 
demais para darmos para trs agora. Se elas forem mortas, no vo partir seu corao, 
tenho  certeza.
      Cesare ficou branco.
        No, Marco. No posso concordar com isso nunca!
  Por que, meu Deus? Em nome dos cus, por que, Cesare? Eu tenho ouvido dizer 
que voc trata as mulheres de um modo que elas desejam estar mortas quando voc se 
cansa delas! Mulheres que fariam tudo para ficar com o belo conde! Mas voc se enjoa 
delas e as pe de lado em trs tempos. Pode negar isso?
      Cesare levantou os ombros.
        Ento  isso! Eu sou cruel e no posso negar.
  Ento por que arrisca todos os nossos planos por duas mulheres que nada 
significam para voc?
      Cesare foi at a janela e ficou  olhando atravs das  persianas para a rua apinhada de 
gente. Ele sentia nojo de si mesmo. Tudo o que Marco disse era a pura verdade; ele tinha 
brincado demais com os sentimentos alheios. Mas tambm no era o nico culpado. A 
maioria das mulheres com quem tinha feito amor no pediam nada alm disso. Sua posio, 
seu ttulo, mais sua suposta riqueza faziam as mulheres correrem atrs dele. E ele era 
apenas humano, pensava, tentando se justificar. O que o impressionava agora, porm,  
que estava achando incrivelmente difcil se livrar da lembrana de um suave e dcil corpo 
jovem, que o tinha perturbado mais do que supunha que algum pudesse perturbar. E logo 
ele, que sempre preferiu as mulheres mais  velhas e experientes.
      Lembrava de cada detalhe do corpo de Emma: o verde de seus olhos, a maciez de 
seus cabelos, as delicadas curvas de seu corpo jovem, e sua boca generosa, larga e macia, 
com seu beijo quente e sensual. Ele se desprezava por sentir-se assim, mas nada adian-
tava. As lembranas permaneciam, perturbando seu sono, seus planos. No podia permitir 
que Marco pusesse a vida de Emma em perigo, no importava quanto suas preocupaes 
pudessem ser importantes. Tinha decidido no tocar nela nunca mais, relembrando 
continuamente a si mesmo que ela ainda era uma criana. Ele virou e encostou na moldura 
da janela.
  No adianta, Marco. No posso fazer isso  ele disse gravemente.
        Mas por qu? Voc afinal  ama aquela viva?
        No!  A resposta de Cesare foi cortante.
  Ento quem? Bom Deus, certamente no est interessado na menininha? Eu 
soube que ela  um pouco jovem demais para voc!
  E  mesmo!  Cesare respondeu rudemente.  No  nada disso, Marco, mas 
ela  um pouco mais do que uma criana. No posso ser responsvel por uma ameaa  
sua vida!
  Est bem, est bem. Ento saia do palcio, ou no vou me responsabilizar pelo 
que acontecer, Cesare. No h nada que eu possa fazer sobre o que vir em seguida. 
Certamente pode entender isso,  no?
      Cesare  concordou.
  Preciso pensar num jeito.  Ele concordou suspirando.  Minha av no  uma 
pessoa que se deixe enganar facilmente. Tem que haver uma boa razo.
      Nessa noite, ele levou Celeste novamente ao cassino. Antnio tinha levado Emma a 
um festival de msica e a condessa tinha demonstrado seu desejo de se deitar cedo.
      Estava uma noite maravilhosa e a gndola trouxe Celeste e Cesare para casa, com 
sua lanterna brilhando como um farol dentro da noite.
  No  romntico?  murmurou Celeste chegando mais perto dele, quando se  
sentaram nas almofadas.  Cesare se encolheu um pouco, quando o movimento fez doer seu 
brao ferido. Mas Celeste nem percebeu.
 Querido  ela continuou.  No acha que devemos estudar mais seriamente 
nossas relaes? Emma e eu estamos aqui j h trs semanas, e penso que nos 
conhecemos bastante um ao outro para termos certeza de que nosso casamento no ser 
nenhum fracasso. Alm de tudo, eu sempre sonhei casar em junho. No h nada para nos 
impedir, h?
      Cesare balanou a cabea e Celeste ficou contente,
       Agora - ela murmurou , me beije, Vidal.
      Ele abaixou a cabea e a beijou com uma estranha sensao de desgosto. Os lbios 
dela se abriram ansiosamente para receber os dele e ela passou os braos ao redor do 
pescoo dele, forando-o a sentir mais o calor de seu corpo, atravs do tecido fino de seu 
vestido.
      Ele a soltou impaciente, mas Celeste sentia-se excitada e triunfante.
 Oh, Vidal!  ela disse apaixonadamente.  No me deixe esta noite. Tenho 
estado to sozinha desde a morte de Clifford. Preciso de voc!
      Cesare endireitou-se, fingindo estar preocupado com as aparncias. No desejava 
Celeste, apesar de reconhecer que era uma mulher bonita, quente e apaixonada. Mas ali 
estava a oportunidade ideal: se pudesse convencer Celeste esta noite de que o casamento 
deles seria logo uma realidade, tentaria sugerir que elas fossem passar uns dias em 
Ravenna para lhe dar tempo de sair da confuso em que havia se metido. Alm disso, ficar 
longe de Emma tambm aliviaria a ansiedade to desenfreada que andava sentindo.
 Mais tarde  ele murmurou para Celeste, que ficou satisfeita.
      Depois do ltimo drinque no salo, Celeste foi para seu quarto. Os olhos  dela 
insinuavam seu  desejo e  Cesare  fingiu estar to
      ansioso quanto ela.
      Quando ela saiu, Cesare serviu-se de uma dose dupla de usque que engoliu de uma 
s vez. Nunca havia se desprezado tanto em sua vida, nunca se sentira to confuso. Irritado, 
acendeu um charuto e ficou andando pela sala, incapaz de se acalmar. A porta se abriu com 
um estalo atrs dele. Era Emma entrando na sala. Ele olhou para o relgio: quase duas 
horas da madrugada. 
 Eu sei que  tarde  ela disse sem flego , mas Antnio encontrou alguns 
amigos e ficamos tomando dzias de caf numa confeitaria na praa So Marcos.  Ela 
sorriu.  Foi divertido; havia tanta gente l e as luzes criavam um clima de conto de fadas.
  Sei  Cesare respondeu secamente.  Seu ombro? No di mais?
  Um pouco. Cheguei a pensar que estivesse inflamado, mas creio que est melhor 
agora.
  Inflamado! Como pode dizer isso com essa calma? justamente voc, que deu 
tantos palpites sobre o meu ferimento!
  Eu sei, eu sei!  Emma corou.  Eu j disse; est tudo bem agora. Estou 
cansada, signore. Boa noite.
      Antes que Cesare a pudesse deter, ela foi para o quarto. Ele jogou fora o charuto, 
tirou o palet e desabotoou a camisa. Tinha que ter cuidado com seu brao e foi com 
esforo que tirou a camisa. Retirou a bandagem que prendia a gase no lugar e viu que o 
ferimento estava cicatrizando, embora o seu aspecto ainda no fosse dos melhores.
      Ouviu uma batida na porta e se virou irritado. Pensando que fosse Celeste, apertou os 
pulsos, disse:
        Entre!
      Para seu espanto, era Emma que voltava, fechando a porta novamente e encostando-
se nela. Seu rosto estava plido e parecia assustada.
  O que houve?  ele perguntou, virando de lado para que ela no visse o 
ferimento.
      Emma passou a lngua pelos lbios secos. No esperava que ele j tivesse comeado 
a se despir, e a viso daquele peito nu e bronzeado fez seu corao bater mais forte.
 Eu. . . eu pensei que. . . voc poderia. . . dar uma olhada em meu ombro  ela 
comeou.  Voc  a nica pessoa a quem posso pedir isso e gostaria de ter certeza de 
que tudo est bem.
      - Sinto. . .  sinto muito se fui rude h pouco, mas estou muito cansada ...
  Muito bem... ento... tire a blusa  Cesare disse, sem se alterar. Aproximou-se e 
soltou a bandagem. Foi ento que Emma viu a enorme cicatriz no brao dele.
        Oh, Cesare!  exclamou.  Que horrvel!
  Sinto muito se isso lhe d repulsa  ele disse, retirando a faixa de modo  a no 
tocar  nela.   Eu ia colocar um  curativo limpo quando voc entrou.
  No  repulsa  Emma protestou.   que deve doer horrivelmente.  Sem 
pensar no que fazia, passou os dedos pelo brao dele, perto da cicatriz, sentindo a firmeza 
de seus msculos e admirando o brilho de sua pele morena e acetinada.
       Pelo amor de Deus, Emma  ele  murmurou rispidamente.
       No me toque assim!
      A mo dela caiu imediatamente como se tivesse sido queimada, mas sua respirao 
foi se tornando ofegante, enquanto o sangue corria depressa por suas veias. A reao de 
Cesare foi brusca, um sinal evidente de que ela no lhe era indiferente. Pelo contrrio.
      Ele desatou o resto da faixa com a mo no muito firme e virou-a para a luz para 
poder examinar melhor o ferimento.
 Est tudo bem  concluiu um  tanto rouco..  Agora saia daqui!
      Emma olhava para ele, suplicante. Sabia que devia ir, mas no conseguia se mover. 
Passou algum tempo e ento, de repente, com um gemido incontido Cesare a puxou para 
ele, presssionando-a contra seu corpo enrijecido. O selvagem e ardente calor de sua boca 
encontrou a dela, e ele a beijou muitas vezes. Foram longos, apaixonados beijos que diziam 
o quanto precisava dela.
      Quando se abaixou, nem ligando para a dor no brao, levantou-a, e a levou at sua 
cama, onde os condes De Cesare tinham dormido desde tempos imemoriais. Emma estava 
perdida em um mundo de loucas sensaes que  negavam qualquer recusa.
      Ele deitou sobre o corpo frgil de Emma, o desejo deixando-o mudo  voz da razo, 
quando um segundo de lucidez o fez parar. 
       Emma, voc enlouqueceu? No pode me deixar continuar!
- Por qu?  ela perguntou com voz rouca e olhos muito bertos de emoo. 
Percebeu naquele momento que tentava enganar a si mesma, convencendo-se de que no 
o amava. Agora sabia que
      adorava desde o primeiro encontro.
      Ento, inesperadamente a porta se abriu e Celeste entrou. Ficou ali em p, olhando 
para eles atnita, com uma das mos na garanta.
  Voc. . . sua vagabunda  disse, furiosa, com os olhos cheios dio.
      Emma voltou subitamente  razo, livrando-se de Cesare e saindo a cama larga, 
ainda abotoando a blusa. Cesare  rolou de costas e sentou-se.
        Bem, Celeste  ele disse frio.  Sempre na hora!
  Como pode explicar isso, Vidal?  perguntou em tom cido, controlando sua fria.
      Ele sacudiu a cabea e saiu da cama, procurando seu robe de seda azul-escuro que 
estava  nos ps da cama.
  Diga voc!  Ele se virou para Emma. Estava zangado com ela, por agir como 
uma criada apanhada na cama do patro, quando tudo o que ele queria era mandar que 
Celeste fosse para o inferno!
      Emma estava atordoada. O que Celeste estava fazendo ali, naquela hora? Por que 
teria ela entrado no quarto daquele jeito, sem bater? Estaria sendo esperada por Cesare? 
Ento eles eram realmente amantes? Talvez o que aconteceu com ela se repetisse habi-
tualmente com outras mulheres.
      Ficou enojada. Saiu correndo dali, as lgrimas molhando seu rosto. No notou que a 
condessa estava perto da porta e quase caiu sobre ela.
       Oh, signora  ela disse.  Me desculpe.
 Acalme-se, menina, acalme-se! Fique aqui. Cesare, o que est acontecendo? Ouvi 
portas abrindo e fechando. . . Oh, Celeste!  exclamou  a condessa.
      Celeste estava furiosa. Longe de se mostrar envergonhado, Vidal parecia 
imperturbvel,  disposto a aceitar qualquer explicao que ela pudesse dar ao caso. E ela 
poderia suportar tudo, menos ser
      ridicularizada.
 Contessa  ela disse colocando um estudado soluo no meio da frase e fazendo 
aparecer um lencinho do bolso do penhoar de cetim estofado. - Tive um choque terrvel! 
Eu ouvi vozes... e fui ver Emma, mas ela no estava em seu quarto. Ento percebi que os 
sons estavam vindo daqui.
      Emma tinha a boca seca, enquanto ouvia de cabea baixa.
      Celeste continuou:
 Eu. . . eu tenho que lhe dizer, contessa. . . seu neto e Emma!  Ela parou para dar 
mais nfase s palavras.  Eles estavam fazendo amor...
  Isso no  verdade!  Cesare a cortou com voz fria e rspida.
      A condessa parecia horrorizada e Cesare comeou a ficar impaciente.
  Sente-se, vov, antes que desabe. Vai ficar a de p ouvindo essas besteiras, ou 
quer a verdade?
      A condessa olhava para o rosto plido de Emma.
  A verdade,  claro  a mulher pediu com voz trmula.  Mas Celeste no 
mentiria para mim. . .
  Claro que no  comeou a dizer Celeste, mas foi silenciada por um olhar 
fulminante de Cesare.
  Emma veio ao meu quarto, eu admito  disse Cesare.  E tambm admito que 
perdi a cabea. Estive bebendo, ela  muito atraente e eu sou um ser humano, como sabe 
muito bem.
        Eles estavam na cama  disse Celeste com ar de triunfo.
  Sim, estvamos  concordou Cesare , mas nada aconteceu. Nada mesmo!
        Espera que sua av acredite nisso? 
      A condessa franziu a testa.
  Devo confessar, Cesare, que conhecendo voc como conheo, isso me parece 
improvvel.
  Improvvel! Mas no impossvel  retrucou o conde.  Oh, pelo amor de Deus, 
por que estou aqui discutindo sobre isso? Tambm no ligo se acredita ou no  concluiu 
sacudindo os ombros.
       Cesare!  disse a condessa, magoada.
  Bem! Vo embora, todas vocs! Vamos discutir isso pela manh.
      Ele ps Celeste firmemente para fora do quarto e fechou a porta com chave. A 
condessa olhou primeiro para Celeste e depois para Emma.
  Concordo  ela disse  que isto deve ser discutido pela manh. Emma, minha 
menina, pode me ajudar a voltar para o meu quarto?
         claro  disse Emma, pegando no brao da velhinha.
      O quarto da condessa era menor que o de Celeste e muito arrumado e limpo. Emma 
ajudou a senhora a ir para a cama e disse:
        H mais alguma coisa que deseja, contessa?
  No, exatamente  ela respondeu, segurando Emma pelo pulso, antes que 
sasse.
  Emma, minha querida menina, no est fazendo papel de boba com meu neto, 
est?  O rosto de Emma queimava como brasa.  Oh, minha querida, no v que tolice 
isso seria? Alm da enorme diferena de idade, ele no  o tipo de homem para. . . como 
posso dizer. . . fazer feliz uma s mulher. Se ele se casar com Celeste, esse casamento ser 
um sucesso. Ela no vai esperar que ele lhe prometa fidelidade e no tenho dvida alguma 
de que ela, por seu lado, vai tirar toda a vantagem da liberdade que ele lhe der. Meu neto 
est casando com ela pelo dinheiro. Celeste sabe disso e est preparada para aceitar as 
condies porque ela quer nosso ttulo. Nossa famlia  muito antiga. Ela vai ter sua parte no 
negcio.
      Emma comeou a protestar, mas a condessa sacudiu -a cabea.
  No, deixe-me terminar. Pode parecer s vezes que sou uma velha um pouco 
estpida talvez, mas ter Celeste aqui tem sido bastante revelador para mim. Percebi que ela 
 egosta e avarenta, ao contrrio do que imaginei que fosse. Mas o que importa  nosso 
palcio e. . .  cansada, ela se recostou nos travesseiros  estou ficando velha demais 
para me preocupar tanto, quando o dinheiro est logo a, to perto de ns.
      Emma pegou a mo da senhora e ajoelhou-se ao lado dela.
        Contessa, a senhora ama seu neto?
  Am-lo? Cesare? Minha menina, no h o que eu no faa por ele.
   Ento como pode esperar que ele case com Celeste? Dinheiro no  tudo na 
vida.
  Um casamento arranjado geralmente  bem-sucedido  replicou a velhinha.  O 
meu foi um casamento arranjado e fomos muito felizes, Vitorio e eu, e no tenho a pretenso 
de ter sido a nica mulher em sua vida. Ele tinha l suas fraquezas, mas sempre
      voltou para mim.
      Emma virou-se para a porta.
        Agora preciso ir  disse, desapontada.
        Voc no faria esse tipo de casamento?
   Jamais, signora. Quando eu me casar ser por amor e apenas por amor. E meu 
marido deve me amar. . .  e apenas a mim!
      - Espero que encontre esse tipo de amor que procura.
  Espero mesmo achar  Emma disse, tentando aparentar uma confiana que no 
sentia.  E no se preocupe, signora. No vou impedir que seu neto case com Celeste. 
Nem poderia, pois creio que ela realmente deseja isso.
      
      
                                                 CAPTULO  XI
      
      
      Emma dormiu mal aquela noite. Perturbada demais com o que tinha acontecido, no 
conseguia relaxar. Ficava apavorada s de pensar que pela manh teria que enfrentar uma 
nova tempestade. Sentia-se fraca e vulnervel em relao a Cesare e sabia o que a 
madrasta poderia tentar fazer para prejudic-la. A nica sada era deixar o palcio 
imediatamente, sem ver Cesare de novo.
      Levantou cedo, tomou caf sozinha e perguntou a Anna se Giulio estaria livre para 
lev-la at o terminal ferrovirio. Tinha jogado apressadamente a maioria das suas coisas na 
mala e tudo que queria agora era  fugir.
 Si, Giulio est livre, mas no entendo, signorina. Por que est indo para o terminal? 
 perguntou Anna, cruzando os braos.
  Oh. Anna, por favor, no faa perguntas. . . Eu tenho que ir embora,
        E o signor conde? Ele sabe de sua deciso?
        Claro que no! Anna, voc sabe por que preciso ir.
  Si, eu entendo por que est fazendo isso. No sou cega e o signor  muito caro ao 
meu corao, tambm. Mas tem certeza que  a coisa certa? Pode ser que. . .
   a nica coisa a ser feita. Sinto muito, Anna, mas no consigo agentar mais. 
Tenho pouco dinheiro, mas suficiente, creio, para chegar  Inglaterra, e ento l. . .   bem. . .   
posso retomar minha vida no hospital. Voc no sabia disso, sabia, Anna? Eu era 
enfermeira antes de vir para c.
  Ento voc no  a enteada da signora Celeste?  exclamou
      Anna.
  Sim, eu sou.  que apenas nossas vidas so um pouco diferentes e nossas 
relaes so como sempre foram, infelizmente: pssimas.
      Emma levantou-se, engolindo o  resto  do caf de sua xcara.
        Estava delicioso, Anna, mas  agora  preciso ir!
        Delicioso? Que bobagem! Voc nem comeu nada!
  No tenho fome. Pode dizer a Giulio que estarei pronta em alguns minutos?
      No havia nada a ser feito. Era muito cedo para a condessa ou Celeste estarem de 
p. E o conde. . . bem, o conde, quem poderia dizer quais poderiam ser seus prximos 
movimentos?
      Suspirou e foi at as arcadas. O sol brilhava em cada torre da cidade, e os canais 
eram como rios de ouro sob a luz dourada da manh. Nunca esqueceria a beleza daquele 
lugar; Veneza sempre teria um canto, especial em seu corao. Olhou para o canal, abaixo 
da arcada, vendo o ptio e alm dele o ancoradouro e a lancha flutuando suavemente. Essa 
seria a ltima vez que estaria ali, e, antes de partir, j sentia saudade.
      Com os olhos cheios de lgrimas, apressou-se para apanhar a mala em seu quarto. 
Subiu e sem esperar para ver se Anna estava vindo se despedir desceu as escadas 
correndo, sem olhar para trs.
      A penumbra do hall deserto fez correr um arrepio por seu corpo e ela ficou satisfeita 
por sair novamente para a luz do sol.
      L fora, no havia sinal de Giulio. Emma apertou os lbios, impaciente, e comeou a 
procurar por ele. Onde teria ido? Oh, por favor, ela implorava, me leve embora! Tenho que ir!
      Olhou de novo para a lancha e ento foi violentamente empurrada por trs e caiu no 
fundo do barco. A corda foi solta e o barco empurrado para a correnteza, enquanto dois 
homens saltavam rapidamente a bordo. Eles deixaram a lancha descer um pouco pela 
correnteza, antes de ligarem o motor.
      Quando Emma voltou a si, estava deitada em algum lugar muito duro e sentia doer 
cada osso de seu corpo. Sua cabea doa horrivelmente e era difcil identificar qualquer 
imagem. Ento, devagar, a memria foi voltando e ela virou ura pouco a cabea, vendo que 
estava na lancha, mas deitada no cho de tbuas, que machucavam suas costas. Tentou se 
levantar, sentindo nuseas, caiu de novo enquanto tudo rodava loucamente ao seu redor.
      Uma voz masculina chegou at ela, falando rapidamente em italiano e ento outra voz 
disse em ingls:
        Ah, ela est voltando a si. Buon giorno, signorina!
      Emma fez novo esforo, esperando que a tontura passasse e sentou. Viu os dois 
homens diante dela, um dos quais reconhecia vagamente como sendo o homem da faca, 
que a tinha atacado dias atrs. Tremendo, forava-se para no entrar em pnico. Ento per-
guntou:
        On. . .  onde esto me levando?
      O homem que ela reconheceu falou em ingls:
  Signorina, ns usamos voc antes como um aviso para seu amigo, o signor 
conde. Ele no ligou para nosso aviso. Ento somos forados a usar voc de novo. S que 
desta vez no haver enganos. O signor conde vai pagar por todos os seus erros.
      Emma mordeu os lbios.
  Vocs sabem que eu no tenho a mais leve idia do que esto falando?
  Oh, sim, ns entendemos isso, signorina. Mas voc ser a isca da armadilha que 
estamos preparando para seu amigo, e se voc vai sair dela, com vida ou no,  uma coisa 
que pouco interessa para ns. No momento, sua vida no est em perigo. . .  ainda. No 
somos sdicos, signorina. No temos nada a discutir com voc. Mas se o conde Cesare no 
obedecer aos nossos comandos, ento talvez oc tenha que pagar o preo, tanto quanto 
ele! 
      Emma sacudiu a cabea.
        Eu vou desaparecer?
  Sim, vai desaparecer  concordou calmamente o homem.  ssa  a idia.
      Emma esfregou a cabea com cuidado, ento outro pensamento surgiu. Anna no 
estaria pensando que ela havia decidido ir embora sozinha?
  Signore!  ela exclamou.  Isso no  assim to simples como pensam. 
Ningum vai pensar que desapareci.
        No tente fazer nenhum jogo comigo, signorina.
- No estou brincando. No entende? Eu estava fugindo de l. . . Apenas Anna, a 
empregada, e Giulio, seu marido, sabiam de meus planos. Eu queria sair de l, ir embora, 
escapar do palcio. Tinha decidido fazer isso antes que algum acordasse. Anna sabia 
disso. Provavelmente ela vai dizer ao conde que eu decidi retornar  Inglaterra. Eu no 
significo nada para ele. Por que ele ia se importar se eu fosse embora? Ele no vai se 
aborrecer com isso nem me procurar.
      Os dois homens trocaram olhares, avaliando a histria, pensando se ela dizia a 
verdade.
   a verdade!  exclamou Emma.  Acham que eu iria mentir sobre uma coisa 
como essa?
      Os homens falavam impacientemente em italiano. O dilogo era rpido demais para 
que ela entendesse, alm. disso sua cabea doa horrivelmente e ela no podia se 
concentrar e tentar entend-los. Ela queria apenas deitar de novo e fechar os olhos, mas 
isso era uma coisa que no podia fazer, de jeito nenhum. Ento ficou sentada, olhando 
fixamente a gua que batia nas casas nos lados do canal. Estavam passando agora por uma 
parte da cidade bem pouco agradvel e Emma pensava se acharia o caminho de volta 
nessa confuso de vielas, caso tivesse uma chance de escapar.
      Alguns minutos depois a lancha virou, passou por um arco baixo e todos tiveram que 
abaixar as cabeas, at que saram em um poro, similar ao que havia debaixo do palcio 
Cesare. Os homens amarraram a lancha e mandaram Emma sair.
      Ela fez isso com pernas bambas e esperou, enquanto os homens cochichavam entre 
si. Depois mandaram que subisse as escadas, at uma porta alta.
      Emma subiu, apesar de suas pernas mal terem fora para mant-la em p. Ela nunca 
tinha sonhado em se ver envolvida numa situao como essa. Parecia um sonho, mas o pior 
 que era bem real. Emma estava aterrorizada. No havia dvida de que o conde e esses 
homens estavam envolvidos em assuntos ilegais e, assim sendo, tinha todos os motivos 
para estar alarmada. Alm disso, os canais de Veneza eram muito teis para se fazer 
desaparecer um corpo.
      Na porta, eles pararam, e um dos homens bateu um rpido cdigo, dando um sinal 
para quem estava l dentro. Um homem barbudo apareceu e abriu a porta.
      Emma entrou em um largo aposento, de cho de pedra. Em cima de uma mesa 
comprida, no centro da sala, havia po, manteiga, carne e vinho. Ao redor estavam sentados 
vrios homens, a maioria dos quais de barba, enquanto que na cabeceira estava sentado 
um gordo de olhos pequenos encravados no rosto rechonchudo, vestindo roupas largas,
      Ele batia impacientemente seus dedos cheios de anis  na madeira da mesa. Quando 
viu Emma, seus olhos brilharam.
         Esta  a garota? 
      Os italianos agora falavam   ingls. Parecia que o homem   no falava a lngua deles 
e em ingls todos se entendiam.
  Sim  disse o homem que tinha falado com Emma.  Esta  a garota. 
Infelizmente as coisas no so simples como pensamos.
        Por qu?  O homem franziu as sobrancelhas.
  Parece que ela estava fugindo de l. Os empregados sabiam que ela estava indo 
embora e acho que vo dizer ao conde que ela voltou  Inglaterra.
        Ento algum precisa dizer a verdade a ele.
  Sim, mas a idia era de que o conde tentaria resgatar a moa e fazendo isso cairia 
em nossa armadilha. Honestamente, voc imagina que ele vai cair no lao quando sabe 
para que ?
      O homem bateu com o punho fechado na mesa. Emma deu um pulo, assustada.
 Silncio! Eu tomo as decises aqui! No sei se voc est certo ou no. Diabos, 
mulher! Por que tinha que escolher logo hoje para fugir?
      Emma no respondeu. No confiava em si para falar uma palavra, e no havia nada 
que pudesse dizer. Estava muito consciente do que podia lhe acontecer. Havia um total de 
quinze homens ali e se Cesare tentasse vir resgat-la, no teria uma chance sequer. Nem 
trs homens, supondo que Giulio e o doutor Domenico o acompanhassem, poderiam contra 
tantos inimigos! Pelo jeito eles no a consideravam um risco. Ela no foi amarrada ou 
trancada, como sempre havia lido nos livros de aventuras. Foi apenas deixada de p 
sozinha e tremendo, imaginando o que o destino lhe teria reservado.
 Bem, vamos correr o risco  disse finalmente o homem.  No adianta ficar aqui 
esperando. O conde Cesare deve saber com quem est lidando. Eu nunca confiei 
completamente nele. Um homem que vende sua integridade por algumas relquias velhas, 
deve ser completamente louco.  Ele riu com desprezo.  Imaginar que ele seria capaz de 
tomar conta desta organizao, que eu, Sidi Ben Mouhli, comecei! Isso  ridculo!  E virou-
se para Emma.  O que quer que acontea, minha cara, ns precisamos conhecer melhor 
um ao outro, no acha?
      Emma olhou em volta. Se ela pudesse fugir dali! Morrer nas guas frias do canal seria 
muito melhor do que ter que enfrentar aquele homem!
      
      
                                                   CAPTULO XII
      
      
      O conde vestia-se vagarosamente depois do banho, imaginando o que ia fazer agora. 
No tinha conseguido dormir, os acontecimentos do dia repassavam em sua mente, se 
embaralhando como um filme confuso. Se, se, se! Se sua av no dependesse tanto dele 
para a restaurao do palcio; se ele no tivesse permitido que Marco Cortina o envolvesse 
nessa situao que agora ameaa destruir a todos; se ele no tivesse conhecido Emma e se 
comportado completamente fora de seus padres, se apaixonando por ela. Pois isso era 
exatamente o que tinha acontecido. Apesar de tentar se livrar desse sentimento, a 
perspectiva de uma vida sem Emma o enchia de horror.
      Ele no se importava mais com a diferena de idade; ela era quente, macia, amorosa 
e totalmente feminina, a me ideal para seus filhos. Mas como ia conseguir se 
desembaraar dessa verdadeira rede de intrigas em que tinha se metido? No via sadas, e 
ainda havia entre eles Celeste e sua av, que queriam empurr-lo para um casamento 
forado.
      Vestiu-se e abriu a porta de seu quarto. Os apartamentos pareciam silenciosos 
demais para essa hora da manh. Passava um pouco das nove e sua av geralmente j 
estava de p a esta hora.
      Entrando na cozinha, foi at Anna que estava de p perto de uma mesa larga, 
mexendo numa tijela de massa de panquecas. Ela movia o brao, mas olhava para frente, 
distrada. Ento, Cesare lhe cochichou:
        Anna!  H algo errado?
      Ela deu um pulo, assustada, e olhou de lado.
  Oh, senhor!  exclamou.  Estou contente por j estar de p. Eu no sei se h 
algo errado ou no, estou to confusa!
      Cesare sentiu um aperto de apreenso.
        Ento me diga! O que est preocupando voc? 
      Anna balanou a cabea.
  Quando fui ao quarto da condessa esta manh, ela estava dormindo 
profundamente. Fiquei preocupada e tentei acord-la, mas ela no acordou.
      Cesare ficou mortalmente  plido.
        Ela est viva?
  Penso que sim. Pelo menos... Oh, senhor, eu no tenho certeza!
  Ento por que no me acordou?  Cesare ia saindo apressado pela porta.          
        Senhor!
        Bem...   fale logo Anna.
        A srta. Maxwell...
        O que foi?
        Ela. . .  ela se foi!
  Se foi?  Cesare exclamou, incrdulo.  Ela foi para onde?
  Eu no sei. De volta para a Inglaterra, acho. Ela pediu a Giulio para lev-la at a 
estao, mas quando ele veio pegar a bagagem, ela tinha desaparecido.
      Cesare fez um gesto de desnimo.
  Deus, Anna! Voc guarda coisas estranhas para voc mesma! Mas espere, 
preciso ir ver vov primeiro.                                       
      Ele entrou no quarto da av, devagar, e aproximou-se da cama. A velhinha parecia 
pequena e frgil, mas felizmente respirava. Cesare puxou uma das pesadas cortinas de 
brocado e olhou-a ansiosamente. A respirao da condessa era fraca e o rosto estava p-
lido. Enquanto Cesare a olhava, ela abriu os olhos.
  Ah, Cesare!  disse baixinho.  Estou muito cansada esta manh. . .  no creio 
que v me levantar.
  Est bem, condessa  ele disse carinhosamente, sorrindo para Ia.  O que 
houve? Tem feito muitas noitadas?  brincou.
  . . .  algo assim  respondeu com voz cansada.  Mas.. . no, Cesare. . .  no 
v embora ainda. Preciso falar com voc.
  Muito bem, condessa.  Cesare sentou-se ao lado dela, toando a mozinha 
magra entre suas mos fortes e morenas. 
       O que ?
  Estou preocupada, Cesare, muito preocupada  ela disse.   sobre Celeste!
  Celeste? O que h com ela? Ah, est querendo dizer sobre o que houve a noite 
passada? No se preocupe com isso, vov. Posso manobr-la.
   Eu sei que pode, Cesare. Eu sei que ela vai casar com voc apesar de seus 
defeitos. Mas... mas, Cesare, no tenho mais certeza se  isso que deve fazer.
        De que est falando?
  O palcio, Cesare. Ele  to importante assim, Cesare?  mais importante que 
voc, que sua felicidade?
  Vov. . .  ele comeou a dizer impaciente, mas ela segurou sua mo.
  No, espere, Cesare! Oua primeiro! Estou muito velha e no creio que v viver 
muito mais. Sua felicidade  uma coisa muito importante para mim. Fiquei aqui deitada a 
noite toda pensando e me preocupando. Voc no ama Celeste, no pode am-la. Ela  fria 
e mercenria e tenho receio que depois que eu me for, este palcio se torne uma corrente 
em seu pescoo e uma espada na mo de Celeste, que vai us-la cada vez que as coisas 
no andarem como ela quer.
  Eu j disse a voc para no se preocupar. Posso manobrar Celeste!
      A condessa suspirou fundo.
  Sim, sim, talvez possa. Mas que tipo de vida ser essa? Viver sob ameaas 
constantemente, como por certo vai ser? No, Cesare, no posso aprovar isso. . .  no vou 
agentar!
  Condessa, condessa!  ele ralhou.  Acalme-se, vamos! Quem andou pondo 
essas idias na sua cabecinha, hein? Celeste? Parece pouco provvel.
  No, no Celeste. Essa garota. . . Emma. Ela  inocente, apesar de viver com 
aquela mulher. Celeste vai fazer tudo para arruinar a vida dela tambm, estou certa. Elas 
no vivem o tipo de vida que Celeste quer aparentar para ns, no! s vezes imagino se al-
guma vez ela se importou com Emma, antes de virem para c.
  Emma!  disse Cesare, se lembrando do que Anna havia dito.  Condessa, 
preciso deixar voc um pouco. H... h algo urgente que preciso fazer. Descanse agora.
        Antes de ir, Cesare, me prometa uma coisa.
        Se puder, prometo.
  Que se voc encontrar algum que ama... se voc j tiver encontrado algum que 
ama... no deixe que o palcio atrapalhe seus planos. Eu imploro. Estou velha demais para 
me importar com isso agora. E este prdio estar sempre aqui, o que quer que acontea. O 
governo tomar conta dele. Se no tiver isso sobre seus ombros, levar uma vida normal. 
Cesare, voc no ser rico, mas no vai morrer de fome. Por favor, pense nisso.
  Est bem, condessa. Vou pensar nisso. Agora, seja boazinha e relaxe aqui at 
que eu volte.
      Ele sorriu carinhosamente para ela, mas quando fechou a porta do quarto, seu rosto 
tornou-se sombrio. Emma era agora sua preocupao principal e ele tinha mpetos de bater 
com a cabea na parede por no ter percebido que o orgulho dela no permitiria que 
continuasse ali, embora, na verdade, no tivesse acontecido nada entre eles. Ela tentaria 
escapar e com isso colocaria sua vida em risco.
      Voltou depressa para a cozinha, onde Anna conversava com Giulio. Fechou a porta e 
disse:
  A condessa est bem, mas muito fraca. Ela vai ficar na cama. Mas agora eu quero 
saber toda essa histria sobre Emma, direitinho e depressa.
   simples  Anna respondeu sacudindo os ombros.  A senhorita veio tomar 
caf muito cedo e me disse que queria sair sem ver ningum. Ela pediu para que Giulio a 
levasse at a estao ferroviria, pois queria voltar  Inglaterra. Me contou que era 
enfermeira em um hospital l, e que reassumiria seu lugar. 
       E depois?
  Giulio veio buscar as malas mas ela j tinha ido! A lancha no estava l. Ela deve 
ter decidido ir sozinha e isso  muito estranho.
  Ento  isso!  disse Cesare.  Por Deus, Anna, por que no me acordou?
  Senhor!  exclamou Anna.  ela foi muito clara dizendo que o senhor no devia 
saber de sua partida e eu no podia trair a confiana dela em mim.
  Mas quando a lancha desapareceu, nenhum de vocs pensou por qu? Afinal de 
contas, eu no creio que Emma saiba dirigir um barco desses. Deus! Alguma coisa sria 
pode ter acontecido a ela!       
      Giulio estava transtornado.
  O senhor pensa que a senhorita pode ter sido levada por algum?  A voz de 
Anna tremeu e sumiu.  Isso no me ocorreu, senhor.
  Ento devia ter ocorrido  Cesare disse zangado.  Vamos, trate de arranjar 
outra lancha e v at o terminal. Se no houver sinal dela por l, me chame neste nmero, 
imediatamente, entendeu?  Ele deu a Giulio um pedao de papel com o nmero do 
telefone.
        Sim, senhor. Vou o mais depressa possvel.
      Depois que Giulio saiu, Cesare foi at seu quarto e tirou o palet, vestindo um suter 
de malha fina. Em seguida, abriu um pequeno cofre atrs de um quadro na parede e de l 
tirou um revlver que colocou em um bolso escondido no cinto de sua cala. Saiu do quarto, 
fechando a porta e entrou no salo dos apartamentos. Para sua surpresa Celeste estava l, 
de p na janela, fumando nervosamente. Ela se virou quando ele entrou, encolhendo-se um 
pouco, com a estranha expresso do rosto dele.
        Bem, Cesare  ela disse baixo. Como est hoje?
  Nada melhor por ver voc agora  retrucou.  No posso falar com voc neste 
momento, Celeste. Existem coisas que devem ser feitas imediatamente.
        Por qu? O que est havendo? Onde esto todos hoje?
  Anna vai contar a voc  ele disse, abrindo a porta do corredor para sair. Ento 
virou-se, pensou um pouco e disse:  Se precisa de alguma ocupao, sugiro que arrume 
suas malas. Creio que h, vagas no hotel Danieli. Talvez consiga ter de volta sua antiga 
sute.
  Cesare!  Celeste estava assustada.  O que quer dizer com isso?
  No  bvio?  A expresso do conde era irnica  Voc
      no  mais bem-vinda em minha casa.  s!
      Fechou a porta antes que ela pudesse dizer qualquer coisa e desceu rapidamente os 
degraus para o hall de baixo.
      Foi desviando pelas vrias vielas e ruas secundrias, at o canal onde estava o 
consultrio de Domenico. Entrando, subiu as escadas e passou pela sala de espera vazia. 
Usando uma chave, abriu a porta interna e entrou na sala de Domenico. Esta tambm 
estava vazia. Fechou a porta, trancando-a. Ento, abriu um armrio na parede, que 
aparentava ser apenas um gabinete de instrumentos cirrgicos. Mas quando Cesare 
pressionou o lado direito da prateleira, todo o compartimento se virou para diante, revelando 
um rdio transmissor.
      Cesare sentou-se em um banquinho, ligou o aparelho e procurou a freqncia 
desejada, para usar uma linha direta com Marco Cortina. Quando Marco respondeu, Cesare 
disse simplesmente:  Transporte B.
      Ento desligou o transmissor, trancou o armrio e colocou as chaves no bolso. Andou 
impaciente pela sala por alguns minutos, depois olhou no relgio e saiu, fechando tudo atrs 
de si.
      L fora estava comeando a chover e tudo parecia cinzento e feio. Alguns segundos 
depois, ele ouviu o som de um motor vindo em sua direo e foi andando rapidamente atrs 
dos arcos, at o canal. Entrou silenciosamente na lancha e foi at a cabine em baixo, depois 
de um breve aceno para o piloto.
      
      Marco Cortina esperava por ele com um cigarro preso entre os dentes. Apertaram as 
mos.
        Bem. . .   disse Marco  o que aconteceu? 
      Cesare explicou e acendeu um cigarro.
       Acha que estou sendo cauteloso demais?
  Talvez sim, talvez no. Est apaixonado pela garota, no est?
  Que diabos! Esquea minhas razes! Ela est em perigo, no acha? Ou ser que 
realmente foi embora para a Inglaterra?
  H um boato correndo que Ben Mouhli est na cidade  Marco disse.  Penso 
que provavelmente voc est certo: ele a pegou!
  Oh, Deus!  Cesare sentiu seu estmago embrulhar.  Por qu?
        Obviamente para fazer voc ir procur-la.
 E se eu no for? Quero dizer, eles no podem saber se eu me importo com ela o 
suficiente para colocar minha vida em perigo.
  No podem, ? Ela  hspede de sua casa.  lgico que eles supem que voc 
vai tentar encontr-la.  desagradvel que eles tenham feito a coisa dessa maneira. 
Significa que vamos ter que abrir o jogo. Eu no queria que isso acontecesse.
  E temos alternativa?  Cesare jogou fora o cigarro.  Eu vou sozinho.
  Isso  ridculo!  disse Cortina violentamente.  No teria a menor chance. 
Mouhli tem mais de uma dzia de homens.
  Eu sei, eu sei.  Cesare andava impaciente pela sala. Estava pensando, tentando 
desesperadamente encontrar uma soluo. Sua cabea parecia querer estourar. Se ele 
pudesse ter Emma de volta agora, seria capaz de acabar com tudo, sem o menor escrpulo. 
Pelo menos acabaria com os planos de sua av para o palcio.
  Veja  ele disse finalmente.  Nossa fora se apoia no fato de que Ben Mouhli 
pensa que eu no gosto de policiais. Ele acredita que estou tentando manobr-lo para fora 
do sindicato. Ele sabe que sou responsvel pelo desaparecimento de Ferenze. Pensa que 
ainda tenho o carregamento, e apenas espero uma chance para dividi-lo. Se eu for at ele. . 
. tenho certeza de que posso achar um meio. ..  Posso tentar um blefe. . .
       Fantstico!   murmurou Cortina.  Que idia nojenta!
        Tem alguma melhor?
  Ainda no. Mas isso no quer dizer que no existe uma que possa ser encontrada. 
 Ele suspirou.  Bom Deus, Cesare, quero voc vivo! Morto, no tem utilidade nenhuma 
para mim.
        Mas quer tambm Ben Mouhl, no quer?
   claro que quero. Mas h pouca chance de irmos por essas vielas sem chamar a 
ateno.  Ele apagou o charuto.  Mas Cesare, se pusermos as mos em Ben Mouhli...
  Isso est fora de cogitao. Se esses bandidos suspeitarem o que estamos 
fazendo, Emma no sair viva de l.
  Est bem. Ento v sozinho. Isso vai lhe fazer muito bem a menos que...  Ele 
parou.  Pode levar uma carga com voc. No ter chance sem algo para negocjar com 
eles.
  Mas isso no tem sentido! Se Mouhli me pegar, pega tambm a erva. E no h 
nenhuma garantia de que vamos sair de l com vida.
  Eu sei disso. Tem que tentar convenc-lo de que est simplesmente tentando 
assumir a direo do sindicato. Ento, quando ele se convencer disso, voc tenta fazer um 
trato com ele.
        Pouca chance! Ento o telefone tocou.
      Cortina respondeu, falou por alguns momentos e desligou.
      Era um chamado do controle. Avisaram que Giulio havia telefonado dizendo no ter 
encontrado sinal da srta. Maxwell no terminal de trens. Ningum com sua aparncia foi vista 
comprando passagem.
  Penso que isso decide tudo, no ?  Marco olhou apreensivo para o conde,
        Penso que sim.  Cesare concordou.  Vamos nos mexer.
      
      
                                                 CAPTULO XIII
      
      
      O dia parecia interminvel. O banco onde Emma estava sentada com um dos 
seqetradores era duro como pedra e ela estava tonta e gelada de desespero.
      No havia luz ou aquecimento nesse lugar enorme, e apesar disso tudo, sabia que 
ainda devia dar graas a Deus, pois at agora sua presena fora praticamente ignorada pelo 
chefo. Mas ele no via sada para seu caso e se sentia desesperada.
      O que mais a angustiava era pensar que, se desaparecesse, ningum ia se importar 
com isso. A velha condessa, quem sabe, podia gastar um pensamento pela jovem para 
quem tinha sido uma professora de arte; mas ningum mais. Depois do que tinha acontecido 
na ltima noite, Celeste no sentiria nada seno dio por ela e o conde certamente ia ficar 
aliviado por no v-la mais por perto atrapalhando seus planos.
      Um homem chamado Kavir sara h algumas horas para entregar ao conde uma 
mensagem sobre o rapto, mas ainda no tinha voltado. Emma pensava se Cesare iria 
chegar. Estava se tornando evidente que o tal sindicato lidava com coisas como armas e 
drogas e ela no poderia amar um homem envolvido com a desgraa e a morte, no importa 
quanto atraente ele fosse.
      Ela suspeitava de que eles lidavam com txicos; as referncias  injees e 
encomendas indicavam algo assim. Certamente foi por
      isso que Cesare ficou to zangado quando ela descobriu aquele equipamento de 
mergulho na caixa de violo.
      Algumas coisas comeavam a se encaixar. O conde Cesare tinha deixado de explicar 
muitas vezes seu comportamento; seu desaparecimento naquela tarde que passaram na 
logoa, e os ataques que ele e ela sofreram. Tudo estava se tornando dolorosamente claro, 
embora ela no quisesse acreditar. Ainda parecia impossvel que Cesare pudesse se aliar 
com um homem como esse Sidi Ben Mouhli.
      Soltou um suspiro e imediatamente Mouhli olhou para ela.
  Talvez esteja ficando impaciente, srta. Maxwell  ele disse sorrindo 
maliciosamente.  No vai ter muito que esperar, sossegue. O galante conde Cesare  um 
cavalheiro um tanto lerdo, mas ele vir, no tema. Ele vir.
        E quando ele chegar?  A voz de Emma mal saa.
  Quando ele chegar, teremos uma pequena brincadeira. O bom conde j teve sua 
vez. Agora  a hora de ele perder uma rodada, ou talvez todas, quem sabe? Ningum me 
trai. ...  ningum!
  O que quer que o conde tenha feito no  do meu interesse  respondeu Emma 
tremendo.  Se eu tivesse sabido antes. . .
  Quer dizer que no sabia nada de todo este jogo? Nisso eu mal posso acreditar. 
Mas veja, o conde tem a impresso de que me tapeou. Ele dispe de uma carga da qual 
voc mesma infelizmente tem o nmero marcado em seu ombro. Essa carga tem o valor de 
muitos milhares de dlares e parece que o conde quer brincar comigo. Mas ento certas 
informaes chegaram ao meu conhecimento que provaram o que eu tinha comeado a 
suspeitar. Esse seu querido Cesare no  um dos nossos, mas sim um astuto, s vezes um 
pouco estpido, membro do Servio de Inteligncia Italiano.
      Apesar da situao extremamente perigosa em que se achava, seu corao pulou de 
alegria. Ento ela no tinha se enganado, afinal! Cesare no era membro daquela quadrilha 
de contrabando de drogas.
 Ento veja, srta. Maxwell, quando seu bom amigo entrar aqui, sem suspeitar de 
nada, estar em perigo iminente. No haver uma chance de ele sair livre daqui, sabendo 
quem eu sou.
  Mas se ele  membro do Servio de Inteligncia, certamente qualquer informao 
que ele possui ser do conhecimento de outros membros da organizao. 
      Mouhli deu de ombros.
  Apenas uma coisa. Ningum mais sabe sobre seus contatos; ningum sabe seu 
esconderijo. Kavir vai descobri-lo e traz-lo para mim. E no pense em truques moa! No 
somos to estpidos quanto pensam.
      Emma comeou a se desesperar. Tudo que Mouhli tinha dito era verdade, e parecia 
improvvel que nenhum dos dois sairia dali com vida.
      De repente ouviu-se uma rpida batida na porta e Mouhli gesticulou para o homem ao 
lado dela, que imediatamente colocou sua mo grossa e suja sobre a boca de Emma. 
Quando um dos homens foi abrir, outros dois entraram; um era Kavir e o outro era Cesare, 
olhando indolentemente para os lados, quando seguiu o outro. Ele parecia extremamente 
confiante e Emma se remexeu para lhe chamar a ateno.
      Cesare olhou rapidamente pelo quarto, parando na figura alta e macia de Mouhli, de 
p diante da mesa, e do outro homem do outro lado, enquanto Emma lutava para se livrar. 
Com suprema segurana ele cruzou o quarto at Mouhli e o cumprimentou.
      - Finalmente nos encontramos. Estarei cumprimentando Sidi Hassan Ben Mouhli?
      Os olhos de Mouhli brilharam.
 Est. E voc  notavelmente frio, considerando sua situao insustentvel.
  Insustentvel?  O conde sacudiu os ombros.  Espero que no!
  Frio, mas no convincente  respondeu Mouhli,  recuperando-se.
      Os olhos do conde se apertaram.
  Minha misso aqui  resgatar a mocinha  ele respondeu rapidamente.  Mas 
nesse processo no h razo pela qual no possamos fazer algo de bom um ao outro.
 Signor conde, est me fazendo bem, apenas estando aqui  retrucou Mouhli 
suavemente, estalando os dedos.  Quer tomar um copo de vinho?
  Obrigado, mas no.  O conde Cesare colocou a mo no bolso e imediatamente 
o cano de uma arma foi colocado em suas costas com um clique.
      Os homens revistaram minuciosamente o conde e retiraram uma arma de um coldre 
sob o ombro.
  Espere  disse Mouhli.  O que ia tirar do seu bolso? Cesare sorriu.
  Apenas isto  ele disse, e atirou um saco de pano sobre a mesa, diante de 
Mouhli, que o abriu cautelosamente, examinou o contedo com ateno e franziu a testa.
- Erva  ele disse devagar. Ento fechou o saco.  Obrigado, conde Cesare. Isso 
vai, na verdade, aumentar meu dbito com voc, mas infelizmente  um pouco tarde para 
tentar recuperar suas perdas. Sua presena aqui me satisfaz completamente. Meus 
negcios em Veneza esto encerrados agora, ou melhor, estaro quando voc e sua 
acompanhante forem descartados.
      O rosto de Cesare no traa seus pensamentos.
  Eu sei tudo sobre voc, signor conde. Tudo! No adianta blefar mais  disse 
Mouhli.
      Emma olhava desesperadamente para Cesare e quando ele olhou para ela, 
finalmente perdeu um pouco de sua frieza.
  Pode parecer que eu tenha me comportado um tanto estupidamente, Mouhli  ele 
disse devagar.
        ... parece que sim  ele concordou.
      Subitamente a porta foi aberta e um homem entrou afobado.
        H homens por toda parte! Estamos cercados! 
      Sidi Hassan Ben Mouhli levantou rapidamente.
  Como foi isso? Onde estavam os guardas? Certamente os canais estavam 
vigiados!
  Devia ter perguntado ao seu homem Kavir, onde ele me encontrou  o conde 
disse a Mouhli.  Ele lhe teria dito que eu estava a caminho daqui, para encontrar voc. Ele 
no parou para perguntar se eu tinha encontrado algum em meu caminho.
  Quer dizer...  Mouhli bateu seu punho fechado na mesa com estrondo.  
Imbecil! Idiota!  Ele olhava para Kavir.  Virou-se para Cesare.  Em outras 
circunstncias ns teramos sido aliados  ele disse surpreendentemente.  Voc tem 
qualidades que eu admiro. Infelizmente voc foi longe demais!
      Ele puxou um pequeno revlver de dentro das dobras de sua vestimenta e apontou-a 
para o conde.
  Au revoir e arrivederci conde!  ele murmurou e, para horror de Emma, puxou o 
gatilho. Cesare caiu pesadamente no cho.
  Voc o matou!  gritava Emma, ignorando o homem que tentava evitar que ela 
corresse at Cesare e casse ajoelhada ao lado dele.
  O que aconteceu?  ele disse frio.  Traidores no merecem uma execuo?
  Ele no  traidor!  Emma chorava, levantando a cabea de Cesare nas mos.
        Vocs so os traidores!
      Os olhos de Mouhli escureceram e Emma sentiu uma pancada na cabea.
  Ningum fala comigo desse jeito  ele disse violentamente.  Garotinha inglesa! 
Mas talvez no devamos desperdiar o dia. Talvez voc deva me divertir um pouco. . .
      Emma estava horrorizada, mas quando ele falou havia vozes que gritavam l fora no 
canal e tiros que estouravam. O homem perto da porta estava aflito e inquieto.
  Venha, Sidi  disse o homem chamado Labul.  No temos mais tempo. Temos 
que escapar.
  Sim, sim  Mouhli concordou.  Estou indo.  Ele agarrou o brao de Emma.  
Venha, voc vem comigo!
        No!  Os olhos de Emma estavam arregalados de pavor.
  Mas sim, signorina. Temos um negcio para terminar entre ns.
      Apesar de suas splicas, foi empurrada rudemente pelo quarto e depois para baixo 
pelas escadas, at o ancoradouro onde a lancha esperava. O homem entrou impaciente, 
ansioso para ir embora, mas Mouhli parecia relutante. Olhou para uma pilha de caixotes que 
havia por perto e com deliberada  alegria, levantou uma lata de
      gasolina e esparramou o contedo sobre a madeira. Ento acendeu um fsforo e 
jogou-o no combustvel.
      Houve uma violenta exploso, e Emma foi jogada contra o lado do barco, batendo a 
cabea com fora, perdendo o equilbrio e caindo dentro das guas do canal.
      Quando voltou  tona, ouviu gritos, enquanto lutava para ficar flutuando a despeito do 
zumbido em sua cabea. Ento ela viu que as chamas tinham tomado completamente o cais 
e at o barco estava em fogo. Homens gritavam e gemiam, mergulhando ao redor dela, mas 
nem a viam, eles prprios tentando sobreviver. Algum tinha sido colhido pelas chamas e 
Emma pensou ter visto as vestes de Ben Mouhli queimando no cais.
      Nauseada pelo calor e fumaa, nadou pela passagem baixa que levava para o canal 
de fora. Tolhida pelas suas roupas grudadas no corpo e tonta pela batida, ia se afastando 
com dificuldade.
      Homens a seguiam, mas ela no ligava. A luz do sol estava l fora e era delicioso 
sentir o ar fresco bater novamente no rosto.
      Pensando em Cesare deitado morto no cho em cima daquele inferno que queimava, 
sentiu o corao pesado como chumbo. Nada mais parecia importar, sequer se ela ia viver 
ou no. Todo o sentido tinha sumido de sua vida agora. Flutuava, mas chegando perto do 
concreto do cais, mos fortes a levantaram da gua para a segurana. Olhou cegamente 
para seus salvadores.
        Senhorita Maxwell? Bem, vamos lev-la agora.
        Cesare...  ela comeou a dizer.
  Vamos ach-lo  eles responderam.                          
        Mas ele est morto  ela disse com voz entrecortada.
  No, ele no est  disse outra voz atrs dela e um homem grande levantou-lhe 
o queixo sorrindo.
  Est sim, posso dizer, eu vi!  Ela chorava, soluando desesperadamente.  Eu 
vi. . . o homem chamado Ben Mouhli o matou. Eu vi!
      O homem grande riu.
  Ser preciso mais do que uma simples bala para matar Vidal Cesare, menina!   
ele disse.
      Mais  tarde,  neste  mesmo  dia,  Emma  teve  permisso  para  ver Cesare no 
hospital. Ele iria passar uns dias l, embora afirmasse que estava se sentindo perfeitamente 
bem. A bala tinha passado a centmetros de seu corao e tinha se alojado em uma costela. 
Agora j estava fora de perigo.
  Voc me assustou tanto!  ela murmurou, ficando ao lado da cama, tremendo um 
pouco.
  Eu assustei a mim mesmo  ele respondeu rindo.  Realmente pensei que tinha 
morrido.
        Oh, Cesare  ela sussurrou.
        Mouhli certamente no esperava por essa, menina.
        Tivemos muita sorte.
  Voc, principalmente  disse Cesare.  Eu pelo menos me recuperaria. Se ele 
tivesse tocado em voc...  Sua voz ficou rouca. . .  Eu. . .  eu pedi a Celeste que fosse 
embora.
        Pediu?  Ela apertava as mos, aflita.
        Sim. Era isso o que voc queria, no era?
        Eu? O que eu tenho a ver com isso?
      Cesare tentou se levantar, ento afundou de novo na cama por causa das dores.
  Est bem, Emma  ele disse.  Voc pode ir agora. Mas, quando eu sair daqui, 
ns teremos um ajuste de contas para fazer.
      Emma concordou e saiu, enquanto ainda tinha fora para ficar em p. No podia 
acreditar em tudo isso. Deveria haver outra armadilha preparada para ela. Milagres no 
acontecem!
      
      
      
                                                     CAPITULO XIV
      
      
      No final daquela semana, a velha condessa morreu. Celeste deixara o palcio e 
Emma tinha ficado, apesar de seus receios.
      Cesare voltou para casa a tempo de presenciar o funeral. Seu brao ainda estava na 
tipia, mas fora isso parecia completamente recuperado. Depois que todos se retiraram e 
apenas ela e Cesare restaram no grande salo, ele disse:
  Vamos direto ao assunto, no, Emma? Eu nunca quis que voc fosse embora. 
Eu.., no posso viver sem voc. Agora, no mais.
  Voc pensou que eu queria ir?  Emma perguntou, trmula.  Mas Cesare, eu 
no estou disposta a ser uma condessa. Eu no posso viver nesse palcio maravilhoso, 
esplndido como ele , como sua amante. Eu sou apenas a simples e comum Emma 
Maxwell.
  Emma, pare com isso! Veja bem, eu no tenho dinheiro. No sou rico. O palcio  
minha nica propriedade de grande valor. Mas eu possuo uma villa em Ravehna, perto do 
mar. Se voc pode ser feliz l, ento ser l que vamos viver. E vai ser a condessa Cesare 
sim, e eu vou ser seu adorado marido, se me quiser.
  Oh, Cesare!  Emma apertou as mos no rosto.  Mas e o palcio? No pode 
abandon-lo assim!  sua herana!
  Ele  uma pedra nas minhas costas  replicou, fitando-a intensamente.  Eu no 
quero mais viver aqui. Quero ser livre. E quero voc.
      - E Celeste?
  Ela nunca foi nada para mim. A idia do casamento partiu de minha av.
  Mas a condessa... Quero dizer... seu maior desejo era que o palcio...
      Cesare sorriu.
        Voc parece querer se livrar de mim!  Ele brincou.
  Cesare! Apenas quero... que voc esteja certo sobre o que deseja. Eu no vou 
suportar se mais tarde se arrepender de alguma coisa.
  Me arrepender de casar com voc?  Cesare alcanou-a e puxou-a para ele.  
Eu penso que no. Na manh em que foi capturada, a condessa me disse que tinha 
pensado nisso e tinha decidido que o palcio era menos importante comparado com a felici-
dade das pessoas. Ela disse que voc a convenceu disso.
        Eu?
  Sim. Creio que ela adivinhou que eu estava apaixonado por voc.
  Oh, Cesare, estou to contente!  Emma passou os braos ao redor do pescoo 
dele.
  Sinto muito se duvidei de voc. Foi uma semana to terrvel!
  Mas tudo est acabado  Cesare murmurou, enterrando o rosto na maciez dos 
cabelos dela.  Agora s importa o que ns dois sentimos.
  Eu te amo, senhor conde  Emma murmurou, levantando o rosto para receber 
um beijo.
      
      Eles se casaram quatro semanas depois e viajaram para uma prolongada lua-de-mel. 
Emma estava no stimo cu, terrivelmente apaixonada por seu marido, que no era um 
prncipe mas o mais charmoso dos homens.
      Uma tarde, quando eles estavam deitados  sombra de um guarda-sol, nas areias 
prateadas da villa, Emma disse:
  Cesare, me diga honestamente: voc telefonou para o hotel Daneli naquela 
manh?
      Cesare riu.
        Vai acreditar em mim?
        Claro.
        Sim, eu  telefonei.                      Mas por qu?
  Eu no sei. Voc me pareceu to desamparada e solitria que me deu vontade  de 
confort-la.
  Ah. . .  que alma mais caridosa!                                             Naquele dia voc j 
sabia dos planos de Celeste?
  Eu tinha acabado de conhecer a condessa, e gostei tanto dela que me senti 
terrivelmente mal por ter participado de toda aquela farsa.                                                                     
  Bem, eu tambm tinha conhecido Celeste naquela noite e receava que sua presena e 
os seus milhes de dlares no meu palcio pudessem prejudicar minhas chances com o 
sindicato. Eles pensavam que eu estava arruinado e pronto para fazer qualquer coisa por um 
dlar. Ento eu conheci voc, e quando veio ao palcio, pensei que podia us-la como um 
disfarce, ignorando Celeste e tudo o mais. Naturalmente, eu acabei me complicando cada 
vez mais, pondo tudo a perder.
        Exceto eu.
  At voc. Quase a perdi com minha estupidez. Se Hassan tivesse tocado um dedo 
em voc. . . Bem, no vamos falar nisso agora.
  Pensando bem...  ela disse, correndo seus dedos sobre o peito dele.  Eu 
quase perdi voc.
        Mas no perdeu  Cesare murmurou docemente.
  No, mas eu sei que teria preferido morrer se no tivesse voc para amar.
  Com tantos homens bonitos soltos por a?  ele retrucou, rindo.
        Para mim existe apenas voc.
  E  assim mesmo que deve ser.  Cesare a abraou com carinho e o beijo que 
trocaram estava carregado de todo o ardor que s os amantes apaixonados possuem.
      
      
      
      
                                                             FIM
 
 
 
 
O Demnio de Veneza (Dirk   Venetian)                                                                             Anne Mather
Julia N 248
                                                   Livros Florzinha                                                                  1 
